Um grupo de lisboetas, desligados das vontades dos partidos políticos ou das candidaturas independentes, decidiu pôr-se à cata de ideias e propostas para fazer de Lisboa uma cidade mais participativa, onde os cidadãos possam sentir que têm uma palavra a dizer nos processos de decisão do governo da cidade.
Dirão alguns que agora é moda ser-se independente. Mas não me parece que estas pessoas sejam independentes. Pelo contrário, parecem-me pessoas comprometidas. Mas esse compromisso é com a sua cidade e não com os partidos políticos, dos quais até podem ser simpatizantes ou até militantes. É bom que, a despeito de um eventual desencanto com a política ou com os políticos, ainda existam cidadãos com força, capacidade anímica e esperança de querer melhorar a cidade onde vivem, estudam ou trabalham.
Não deixa de ser curioso que duas candidaturas de independentes - Carmona Rodrigues e Helena Roseta - tenham surgido e baralhado as contas partidárias. Só por si, este facto é um sinal de que alguma coisa está já a mudar na governação de Lisboa.
Os próximos governantes da cidade, pertençam ou não a partidos políticos, já perceberam que terão de contar com estas expressões de cidadania activa a reclamar direitos, a contestar opções, a apontar outras soluções. Lisboa precisa destes movimentos como do pãozinho para a boca. E os lisboetas agradecem. Venham mais cinco.
domingo, junho 17, 2007
Há dias piores...
Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim
Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo
in Carlos Tê/Rui Veloso
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim
Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo
in Carlos Tê/Rui Veloso
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música
Estou lá...
Deu-me agora uma vontade de pousar o olhar no horizonte de Monsaraz. E perder-me na imensidão da planície, com vontade de mergulhar os pés em Alqueva.Ao fim da tarde, acompanhar a descida do Sol da varanda do Alcaide, onde mastigo umas migas de espargos e me deixo levar pelo doce sabor do vinho da casa, deixando-me adormecer em boa companhia no quarto quatro da Casa d' Nuno, sonhando já com o farto pequeno almoço de pão quente do Telheiro.
Como não há coincidências, estas memórias devem compensar alguma coisa. Que nervos!
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O meu mundo
sábado, junho 16, 2007
Bem prega frei Tomás...nas ruas de Lisboa
Ana Sara Brito, a terceira da lista de António Costa para a Câmara de Lisboa, até gostava de ver entre o(a)s noivo(a)s de Santo António alguns casais homossexuais. Foi ontem no debate promovido pela ILGA. Eu não ouvi, mas li aqui.
Ora, se o Partido Socialista defende o casamento civil dos homossexuais só não percebo porque motivo, sendo governo, ainda não apresentou nenhuma proposta legislativa nessse sentido. Como também não compreendo porque razão o programa eleitoral de António Costa para Lisboa não faça uma única referência ao assunto.
Ora, se o Partido Socialista defende o casamento civil dos homossexuais só não percebo porque motivo, sendo governo, ainda não apresentou nenhuma proposta legislativa nessse sentido. Como também não compreendo porque razão o programa eleitoral de António Costa para Lisboa não faça uma única referência ao assunto.
sexta-feira, junho 15, 2007
Coisas que detesto (II)
Sentir-me amarrada e que brinquem com a minha liberdade. Não gosto mesmo, mesmo, nada.
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O meu mundo
Porquê?
Porque motivo temos tanta dificuldade em lidar uns com os outros; porque complicamos coisas simples, porque nos tornamos reféns das nossas vontades não cumpridas; porque nos desiludimos; porque nos magoamos sistematicamente e aos outros, mesmo quando não percebemos; porque nos sentimos de pés e mãos atadas, por tantas vezes; porque falamos demais e outras, tantas outras, de menos; porque sentimos tanto e compreendemos tão pouco; porque nos custa tanto entender-nos a nós e perceber os outros, porque nos custa não saber ou nos pesa a sensação de saber de mais.
Devo ser um case study, ao passar por um retardamento da idade dos porquês.
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O meu mundo
A homossexualidade e os candidatos
A ILGA, associação que defende os direitos dos homossexuais, convidou os candidatos à presidência da Câmara de Lisboa a revelarem a sua postura política face ao tema da homossexualidade. Apenas Helena Roseta aceitou estar presente no debate de hoje à noite. António Costa, Fernando Negrão, Carmona Rodrigues, Rúben de Carvalho, José Sá Fernandes e Telmo Correia delegaram em outros membros da lista (do 3º aos 24ª) a sua participação.
Será um sinal de homofobia ou continuamos com a tolerância envergonhada do políticamente (in)correcto? Ou então os candidatos descobriram que já não há homossexuais em Lisboa, porque foram todos para Madrid...
Os responsáveis da cidade andaram tantos anos a assobiar para o lado, em relação a tantos assuntos, que quando Lisboa despertou deu por si com menos 250 mil pessoas, com uma população envelhecida, um património em ruína, as actividades económicas asfixiadas por falta de vitalidade e sem massa crítica capaz de novas soluções.
quinta-feira, junho 14, 2007
Coisas de que gosto (II)
Dos regressos. De matar saudades. Dos campos multi-coloridos de Maio e e Junho. Das conversas de fim do dia. Dos passeios à beira Tejo. Ds chuvas repentinas de Verão.
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O meu mundo
A verdade a que tínhamos direito...há 17 anos
Fez ontem - dia de Santo António - 17 anos que saiu para a rua a última edição do jornal o diário. Foi uma grande escola de jornais e de jornalistas. Foi ali que fiz os primeiros três anos de profissão e onde aprendi, com grandes camaradas, a importância de observar e de escrever com rigor o que via e o que me diziam. De separar a notícia - os factos - de opinião. E de cada vez que me lembra esta necessária separação recordo as sábias palavras do Joaquim Benite, com quem me peguei várias vezes: "O leitor está-se nas tintas para a tua opinião. O leitor quer saber o que se passou". Apenas isso. E 20 anos depois continuo, todos os dias, a tentar ser fiel a essa separação, apesar de viver numa sociedade onde, cada vez mais, se misturam opiniões com factos, numa mastigação colectiva que nos permite ter e fazer opinião sobre tudo.
Mas foi também em o diário que deixei cair por terra as minhas primeiras ingenuidades políticas, quando percebi que eram muitas as verdades a que tínhamos direito, consoante o lado economicista (ou direi político) de que estávamos. Quando percebi que o diário de esquerda onde tantas linhas se escreveram sobre a defesa dos direitos dos trabalhadores foi afinal o primeiro orgão de comunicação social a encetar um processo de despedimento colectivo. Por coincidência, em 1992, quando o Mundo estava a mudar.
Mas foi também em o diário que deixei cair por terra as minhas primeiras ingenuidades políticas, quando percebi que eram muitas as verdades a que tínhamos direito, consoante o lado economicista (ou direi político) de que estávamos. Quando percebi que o diário de esquerda onde tantas linhas se escreveram sobre a defesa dos direitos dos trabalhadores foi afinal o primeiro orgão de comunicação social a encetar um processo de despedimento colectivo. Por coincidência, em 1992, quando o Mundo estava a mudar.
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jornalismo
quarta-feira, junho 13, 2007
Mais e mais Alfama
Alfama voltou a ganhar (deve ser a milésima vez) o concurso das marchas populares de Lisboa. E Marvila (também pela milésima vez) ficou em segundo.
Há uma sensação de dejá vú que me desassossega nesta classificação.
Talvez os senhores candidatos, que ontem andaram a espalhar beijinhos pela avenida, quando forem eleitos vereadores tenham coragem para olhar melhor para a forma como decorre este concurso e todo o processo de classificação. É preciso acabar com as subjectivades deste sistemático pendor por Alfama, bairro lindo e nobre de Lisboa, que encerra boa parte do sentir lisboeta. Mas nas marchas populares o que está em apreciação é mesmo a qualidade da marcha. Apenas.
Largas centenas de pessoas dão cor e vida às marchas populares da cidade. São elas que, todos os anos, durante três a quatro meses no mínimo, dão o seu tempo para construir um dos momentos mais emblemáticos da vida de da cidade. Perder e ganhar faz parte da festa. Mas é preciso que todos compreendam que os outros foram melhores. Isso dignifica a derrota e engrandece a vitória. Mas não é isso que tem acontecido. A subjectividade dos critérios classificação não pode continuar a pesar como uma sombra na transparência do concurso das marchas de Lisboa.
2007
Alfama foi a melhor marcha e a melhor coreografia
Marvila venceu a cenografia, o figurino (com Alfama) e a musicalidade (com o Bairro Alto e Campolide).
A melhor letra e canção original pertence à Bica.
A marcha dos Olivais ficou em 10º lugar, a da Graça em 12º (lamento, Pisca) e a do Beato em 16º (a pior classificação de sempre desta jovem marcha).
Há uma sensação de dejá vú que me desassossega nesta classificação.
Talvez os senhores candidatos, que ontem andaram a espalhar beijinhos pela avenida, quando forem eleitos vereadores tenham coragem para olhar melhor para a forma como decorre este concurso e todo o processo de classificação. É preciso acabar com as subjectivades deste sistemático pendor por Alfama, bairro lindo e nobre de Lisboa, que encerra boa parte do sentir lisboeta. Mas nas marchas populares o que está em apreciação é mesmo a qualidade da marcha. Apenas.
Largas centenas de pessoas dão cor e vida às marchas populares da cidade. São elas que, todos os anos, durante três a quatro meses no mínimo, dão o seu tempo para construir um dos momentos mais emblemáticos da vida de da cidade. Perder e ganhar faz parte da festa. Mas é preciso que todos compreendam que os outros foram melhores. Isso dignifica a derrota e engrandece a vitória. Mas não é isso que tem acontecido. A subjectividade dos critérios classificação não pode continuar a pesar como uma sombra na transparência do concurso das marchas de Lisboa.
2007
Alfama foi a melhor marcha e a melhor coreografia
Marvila venceu a cenografia, o figurino (com Alfama) e a musicalidade (com o Bairro Alto e Campolide).
A melhor letra e canção original pertence à Bica.
A marcha dos Olivais ficou em 10º lugar, a da Graça em 12º (lamento, Pisca) e a do Beato em 16º (a pior classificação de sempre desta jovem marcha).
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Marchas populares
terça-feira, junho 12, 2007
A descer a Avenida sempre em Liberdade
Hoje é noite de Santo António. De desfile dos bairros pela Avenida. Mesmo quando estive ligada ao Beato, o meu coração já pertencia a outra. Em noite de marchas populares de Lisboa, perdoem-me o bairrismo, mas isto só se solta uma vez por ano.
Força Marvila!
Força Marvila!
Este ano sob o tema das tabernas da minha Lisboa Oriental, onde também aprendi a jogar às damas, ao dominó e à sueca.
Antes de saber quem será a marcha vencedora, espero sinceramente que este ano não voltem a pesar suspeições sobre a decisão do júri de um concurso que diz muito a Lisboa e a largas centenas de lisboetas que, anualmente, dão cor e vida a uma das manifestações mais pitorescas e tipícas da cidade.
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Lisboa,
Marchas populares
A terapia do trabalho
Além da escrita, também o trabalho é uma boa terapia. Para tudo. Para nos alhearmos ou para nos envolvermos. Para mudar ou para permanecer. O trabalho obriga-nos a uma concentração suplementar. E com ele saltamos de nós para os outros. Sem qualquer pretensão de distinguir o sentir e o compreender. Dirão os psicólogos que será uma fuga. Pois que seja. Antes isso que anti-depressivos.
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reflexões
A presença dos candidatos nas TV's
Os dados são da Marktest e revelam os tempos de cobertura jornalística das acções de pré-campanha dos principais candidatos às eleições intercalares em Lisboa.Factos são factos.
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eleições,
jornalismo,
Lisboa
A nova escravatura na Holanda
A minha camarada de redacção Céu Neves assinou no Diário de Notícias uma das reportagens mais interessantes que li na imprensa portuguesa nos últimos anos. A Céu fez, de motu próprio, o percurso dos trabalhadores portugueses que buscam o el dorado na Holanda e a realidade que encontrou devia obrigar-nos a reflectir com seriedade sobre este tipo de escravatura.
Pessoas aliciadas em outros países para irem trabalhar em fábricas ou hóteis, sem contratos de trabalho, ficando alojadas em condições deploráveis e reféns de esquemas ardilosos que buscam o lucro a qualquer preço. A jornalista não se limitou a acompanhar os cidadãos portugueses que pensam encontrar na Holanda o que Portugal também não lhes dá - o trabalho com direitos. Durante duas semanas, a Céu fez o calvário dos trabalhadores portugueses nas fábricas de tomate. Viu o desespero, a desesperança, a crueldade. E eu, que li a reportagem e que segui o debate televisivo ontem, fico a pensar se é esta a a Europa dos direitos e da cidadania idealizada por Jean Monnet ou até por Jacques Delors.
Penso nos portugueses lá e penso nos ucranianos, nos brasileiros ou nos romenos cá. Nos angolanos ou nos guineenses. Penso nos fluxos migratórios dos anos 60, de Portugal para França e para a Alemanha. Será diferente? Não andaremos todos a construir as "cidades para os outros". Faremos diferente em Portugal quando nos aproveitamos da mão-de-obra barata, explorando quem nada tem?
Tenho esperança que um dia a humanidade perceba a importância do trabalho na construção de sociedades mais justas, fraternas e solidárias. Onde não caiba a exploração e seja reconhecido o valor do trabalho.
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jornalismo
"Estou farto de carregar cadáveres às costas"
O homem aproveitou as férias para ir à Ucrânia buscar o filho. Já estava em Portugal há cinco anos com a mulher e, finalmente, optara por viver aqui, onde começavam a fortificar as raízes que, na sua Pátria fria, não tinham vingado.
Ontem, de regreso ao trabalho pelas oito da manhã, voltou a pegar no camião que conhecia bem. De Alcobaça para Alverca, optou por ir pela CREL e, sem que se perceba bem o que teria acontecido, o camião embalou-se na perigosa descida da A9 e acabou por capotar junto às cabines da portagem. E o homem ficou ali.
Foi a notícia do dia de ontem e calhou-me a mim, em regresso de férias, ir a Alverca, contar o que se passou. Sempre testemunha à posteriori relatando os factos que polícias, bombeiros e outras autoridades descrevem. Mesmo habituada, por força das circunstâncias profissionais, a lidar com tragédias destas, fiquei impressionada com o que vi. Com o que soube. E sempre que tenho de enfrentar situações destas lembro-me do cigano, um sábio inspector de polícia, que cansado de construir muros com as tragédias dos outros, no rescaldo de mais um homícidio desabafou com duas jornalistas que o convidaram para beber um café: "Estou farto de carregar cadáveres às costas".
Como nós percebemos o cigano, não é Marmar?
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jornalismo,
O meu mundo
segunda-feira, junho 11, 2007
Recomeço
Tenho saudades. E irrita-me sentir-me assim, logo no primeiro dia do regresso ao trabalho.
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O meu mundo
domingo, junho 10, 2007
Chuvas de Junho
Caí uma chuva repentina e surpreendente em Lisboa, que lava as flores de Jacarandá dos passeios do meu bairro, avivando as cores da paisagem e acentuando o azul forte do meu rio. Tempo esquisito este.
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O meu mundo
sexta-feira, junho 08, 2007
(Al)pista no caminho do golfe

Da Portela, recordo as despedidas de familiares do terraço do aeroporto. Ficávamos ali, ao longe, a vê-los embarcar, numa partilha de lágrimas com os companheiros do lado. Em outras vezes era um momento de festa, transvestido de passeio domingueiro para as crianças pobres da cidade que nunca tinham visto os aviões levantar vôo.
Habituei-me à presença do aeroporto na minha Lisboa Oriental. Aquela de que os governantes da cidade se esqueceram durante meio século. No meio do lixo, da degradação urbana, dos contentores a separar-nos do rio, o aeroporto era a única estrutura de referência para lá de Santa Apolónia. Mais do que a porta de entrada na nossa cidade, era a porta de entrada no nosso País dos ricaços de uma Europa que julgávamos distante. E mesmo que fosse a correr, eles tinham de chegar à rotunda do Relógio para encontrar o centro da cidade.
O nosso olhar para Santa Apolónia, o velhinho convento de freiras adaptado às exigências industriais da época do transporte, era diferente. Muito mais próximo, porque era à velha estação ferroviária de Lisboa que íamos com frequência buscar os tios de França ou da Alemanha, do Alentejo ou das Beiras.
A cidade, de repente, descobriu o seu lado oriental, cresceu e embelezou-se, e o aeroporto ficou a mais. E perigoso. No limite dos concelhos de Lisboa e de Loures, inserido na fatia territorial mais povoada dos dois concelhos, o aeroporto da Portela é hoje uma zona de risco. Mas já o era há 20 anos.
Tanto do lado de Loures como de Lisboa cresceram bairros clandestinos e de habitação degradada durante a segunda metade do século passado. E foi à volta do aeroporto - onde havia espaço livre ou vazios urbanos' - que se foram concentrado os milhares de refugiados laborais que procuravam na cidade o emprego que os campos não davam.
Nunca ninguém se preocupou com o perigo quando, há 20 anos, os Boeing 747 sobrevoavam em vôo rasante o bairro de pré-fabricados do Relógio, antes de tocarem o chão de Lisboa. O bairro do Cambodja, de que poucos recordarão o nome de má memória, deu lugar hoje a um orgulhoso campo de golfe, o único da cidade, de onde se tem uma das melhores perspectivas do aeroporto. E eu até penso que, se calhar, o barulho dos aviões começou a perturbar as concentradas tacadas.
É inegável a importância estratégica de um aeroporto para uma cidade. Ainda por cima, uma cidade periférica cujo cartão de visita reside no turismo. Lisboa precisa de manter um aeroporto de pequena dimensão. Mas a despeito do romantismo das recordações, eu não quero um aeroporto com a dimensão do aeroporto internacional da Portela no centro de Lisboa. Não quero imaginar a brutalidade de um eventual acidente numa zona residencial e penso que toda a área envolvente é penalizada pelo ruído e pela intensidade de tráfego desnecessariamente.
Não sei se o novo aeroporto internacional de Lisboa deva ir para a Ota ou para Rio Frio (até prova em contrário defendo a Ota), mas defendo e desejo que seja qual for a opção se decida rapidamente.
Habituei-me à presença do aeroporto na minha Lisboa Oriental. Aquela de que os governantes da cidade se esqueceram durante meio século. No meio do lixo, da degradação urbana, dos contentores a separar-nos do rio, o aeroporto era a única estrutura de referência para lá de Santa Apolónia. Mais do que a porta de entrada na nossa cidade, era a porta de entrada no nosso País dos ricaços de uma Europa que julgávamos distante. E mesmo que fosse a correr, eles tinham de chegar à rotunda do Relógio para encontrar o centro da cidade.
O nosso olhar para Santa Apolónia, o velhinho convento de freiras adaptado às exigências industriais da época do transporte, era diferente. Muito mais próximo, porque era à velha estação ferroviária de Lisboa que íamos com frequência buscar os tios de França ou da Alemanha, do Alentejo ou das Beiras.
A cidade, de repente, descobriu o seu lado oriental, cresceu e embelezou-se, e o aeroporto ficou a mais. E perigoso. No limite dos concelhos de Lisboa e de Loures, inserido na fatia territorial mais povoada dos dois concelhos, o aeroporto da Portela é hoje uma zona de risco. Mas já o era há 20 anos.
Tanto do lado de Loures como de Lisboa cresceram bairros clandestinos e de habitação degradada durante a segunda metade do século passado. E foi à volta do aeroporto - onde havia espaço livre ou vazios urbanos' - que se foram concentrado os milhares de refugiados laborais que procuravam na cidade o emprego que os campos não davam.
Nunca ninguém se preocupou com o perigo quando, há 20 anos, os Boeing 747 sobrevoavam em vôo rasante o bairro de pré-fabricados do Relógio, antes de tocarem o chão de Lisboa. O bairro do Cambodja, de que poucos recordarão o nome de má memória, deu lugar hoje a um orgulhoso campo de golfe, o único da cidade, de onde se tem uma das melhores perspectivas do aeroporto. E eu até penso que, se calhar, o barulho dos aviões começou a perturbar as concentradas tacadas.
É inegável a importância estratégica de um aeroporto para uma cidade. Ainda por cima, uma cidade periférica cujo cartão de visita reside no turismo. Lisboa precisa de manter um aeroporto de pequena dimensão. Mas a despeito do romantismo das recordações, eu não quero um aeroporto com a dimensão do aeroporto internacional da Portela no centro de Lisboa. Não quero imaginar a brutalidade de um eventual acidente numa zona residencial e penso que toda a área envolvente é penalizada pelo ruído e pela intensidade de tráfego desnecessariamente.
Não sei se o novo aeroporto internacional de Lisboa deva ir para a Ota ou para Rio Frio (até prova em contrário defendo a Ota), mas defendo e desejo que seja qual for a opção se decida rapidamente.
quinta-feira, junho 07, 2007
Coisas de que gosto
Ter esperança. O copo meio cheio. Pessoas inteligentes. Escrever. Ver e sentir. A primeira chuva depois do Verão. O entardecer em Monsaraz e em Vila Nova de Cerveira. O imenso mar dos Açores. O lhéu de Vila Franca do Campo visto do Monte Escuro. As caminhadas por onde os pés me levem. Tomar banho às oito da noite na Caldeira Velha. O Pico visto de S. Jorge. A neblina das Flores. Comer e beber com amigos. Vinho tinto. Ouvir os cucos a desoras em Montesinho. A comida do Manel. Os meus bichos. As minhas pessoas. A verdade. A lealdade. A vida. (em actualização permanente)
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O meu mundo
Coisas que detesto
A mentira, a hipocrisia e as coisas inúteis que me fazem perder tempo.
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