quinta-feira, julho 12, 2007

O meu reino entre os cucos

Sei que fica em Bragança, porque o Google me disse, e não sei mais mais nada. Mas despertou em mim a memória das casas de Montesinho e do cantar dos cucos a desoras, no alto dos Ulmeiros. Montesinho que, com o Sabugueiro na Serra da Estrela, é a aldeia mais alta de Portugal (a 950 metros de altitude). Foi ali que, pela primeira vez, me caiu a pele das orelhas durante um pecurso pedestre não controlado, há 15 anos, debaixo de tórrido Sol de Abril.
Foi também nessa altura que descobri que a cerveja quente até nem era má de todo e que ensinamos a uns checos, aventureiros como nós, que o vermelho das cartas de jogar, em português, não se dizia exactamente tinto.

O meu corpo hoje está aqui, mas o meu espírito, esse, bem esse garanto que está por lá. A ouvir os cucos.

terça-feira, julho 10, 2007

Memorandum (em latim)

A Fazer no próximos dias:
a) Comer uma travessa de sardinha assada, com batata cozida, salada de alface e cebola e emborcar um jarro de sangria feita por mim
b) Fazer a digestão e mergulhar na piscina
c) Ir à praia e andar quilómetros na linha d'água
d) Fazer uma caminhada num sítio isolado
e) Continuar a fazer de conta que não percebo as provocações, os desafios e o engodo

E, entretanto, trabalhar, trabalhar, trabalhar.

segunda-feira, julho 09, 2007

Geração 500 euros

O meu DN dá hoje eco do emprego da moda, nos call centers. Trabalho temporário, sem direitos, a troco de 500 euros por mês, tornado a única alternativa de trabalho para a geração mais jovem. Mas não se pense que esta é apenas uma função desempenhada por jovens licenciados, acabadinhos de sair da universidade e em começo de vida. Há cada vez mais trabalhadores seniores a fazerem turnos pós-laborais em call centers, depois de cumprirem as oito horas de trabalho em outra empresa. O dia de trabalho é hoje de 12 horas para muitas familías. Por isso é sempre bonito ouvir os políticos falarem da importância da família numa sociedade que vai ficando cada vez mais desumanizada e sem tempo, porque o dinheiro não chega.

domingo, julho 08, 2007

A maravilhosa sensação de pertencer a uma minoria

Consegui meter três das minhas maravilhas no conjunto das sete maravilhas portuguesas. E fico com esta deliciosa sensação - a que já estou habituada e não é má de todo - de pertencer a uma minoria. Apesar de tudo, dirão alguns, não foi mau, mas não deixo de ficar de queixada caída por perceber que, para a maioria dos portugueses votantes, o Convento de Cristo, em Tomar, por exemplo, não é uma obra assim tão extraordinária. Será que votámos, apenas, pelos monumentos que mais conhecíamos? É a única explicação que encontro para a inclusão da Torre de Belém nestes 7. E já que era "obrigatório" meter algum património de Lisboa, que esse fosse representado pelos Jerónimos. É que à frente da Torre de Belém, em minha opinião, até é mais interessante o Largo do Chafariz de Dentro, em Alfama, ou o Panteão Nacional.


Foi a seguinte a votação oficial:
1.Mosteiro de Alcobaça
2. Mosteiros dos Jerónimos
3. Palácio da Pena
4. Mosteiro da Batalha
5. Castelo de Óbidos
6. Torre de Belém
7. Castelo de Guimarães

Eu teria posto o Palácio da Pena em 5ºlugar, o Castelo de Óbidos em 6º e, por fim, coincidimos eu e a maioria com o Castelo de Guimarães em 7º lugar.

Os meus quatro primeiros não couberam nas escolhas finais e eram: O Castelo de Almourol, em Constância, o Convento de Cristo, em Tomar, a Fortificação de Monsaraz e o Paço Ducal de Vila Viçosa.

sexta-feira, julho 06, 2007

A segunda vida do candidato

O candidato socialista à presidência da Câmara de Lisboa, António Costa, inaugura amanhã a sua sede de campanha no mundo virtual Second Life. Diz-me a Agência Lusa que o seu personagem aparece mais magro e sem óculos e que o edifício, modernaço, é uma estrutura de arquitectura contemporânea à base de vidro. Safa, ainda bem que é virtual. Imagem se houvesse um terramoto a sério, a quantidade de cacos que tinhamos de apanhar. Cá para mim, tenho de admitir que tenho muitas dificuldades em conseguir dirigir uma só vida, quanto mais uma vida dupla.

Saberes

O meu puto, convencido de que me conhece bem, saiu-se com esta: "Tens esse ar de má, mas no fundo és um coração de manteiga". E pronto, assim se vai a autoridade de uma mãe.

Equipamentos simpáticos

Confesso aqui a minha simpatia pela cor do equipamento secundário do Benfica. Acho que o cor-de-rosa é o máximo. Apesar de tudo, deixo aqui a minha solidariedade com os vermelhos (não disse lampiões, anotem). É que a seguir a uma vem logo outra: depois das camisolas só faltava mesmo era o negócio da China. O que prova, mais uma vez, a veracidade da célebre Lei de Murphy: Por muito más que estejam as coisas, podem sempre piorar.

Uma vela na tempestade


Não sou especialmente adepta de Salvador Dali, mas retirei esta imagem de um conjunto de pinturas do pai do surrealismo, que a Marmar me mandou. É uma imagem de esperança. E eu gosto. Acho que tenho de voltar a dar o benefício da dúvida ao catalão. Ou então deve ser deste bafo quente que me está a tolher o espírito terreno que me gabo de possuir. Sei apenas que me fez recordar um provérbio (cuja autoria desconheço) que desde miúda adoptei, nos meus rascunhos e nos rabiscos com que pintalgava os cadernos escolares: Mais vale acender uma vela que amaldiçoar a escuridão. Os faróis fazem parte do meu imaginário.

quinta-feira, julho 05, 2007

Um requerimento para o IVA

Agrada-me a devolução do IVA sobre os automóveis novos comprados há menos de oito anos. Não que tenha muita fé nisso, mas porque nos dias que correm aceitamos de bom grado qualquer esperançazita. Parece que, apesar de avisado pela União Europeia, o governo (honra seja feita o anterior) andou a cobrar IVA em cima de outros dois impostos: o extinto Imposto Automóvel e o novo Imposto sobre as Viaturas. Belo. Se for como a União preconiza, bem pode o Ministério das Finanças ir preparando 1,8 mil milhões de euros (segundo o meu DN).
Apenas um reparo: parece que se for assim os interessados terão de ir para Tribunal para reclamar essa verba. Será que convém ao Estado entupir ainda mais os tribunais, apenas com o fito de tornar ineficaz uma obrigação. Se for assim, só espero que da União venham directrizes claras para que baste um requerimento para solicitar a devolução do IVA. Burocracia por burocracia...

Más decisões políticas pagas por todos

A Câmara Municipal de Santo Tirso está na eminência de receber seis milhões de euros do Estado português a titulo de compensação por perdas e danos resultantes da desanexação de parte do seu território, o qual veio a dar origem ao concelho de Trofa. É a segunda decisão judicial que dá razão aos argumentos de Santo Tirso, restando agora ao Estado um último recurso para o Tribunal Constitucional.
É interessante este processo pelo que representa sobre as políticas que têm sido seguidas de divisão administrativa do País, sempre dirigidas por critérios ad-hoc e impulsionados por vontade partidárias, ao sabor dos dirigentes do momento.
Sou favorável à descentralização administrativa do Estado, em consonância com o principio da subsidiariedade, que torna a governação tão mais eficaz, quanto mais próxima estiver dos cidadãos. Por isso, em teoria, sou favorável à criação de mais concelhos, em locais onde tal se justifique pela existência de pessoas, como sou favorável à extinção de alguns, onde a densidade populacional ou razões históricas não justifiquem a sua manutenção. Sou favorável, por exemplo, a numa nova reorganização administrativa do concelho de Lisboa.
Visto de fora parece-me que Santo Tirso tem razões para se sentir lesado, pois foi expurgado de uma importante fatia territorial, com a consequente mais valia financeira que tal território lhe trazia. E sem essa parte de capital, que agora a câmara reclama em tribunal, quem ficou prejudicada foi a população de Santo Tirso. Pior ainda, com a criação do novo concelho, Santo Tirso foi obrigado a facultar pessoal e a pagar um terço dos salários dos novos funcionários municipais.
Curioso é observar agora que Loures, que na mesma ocasião perdeu o território do novo concelho de Odivelas, espere agora o resultado da iniciativa pioneira de Santo Tirso, para também vir reclamar em tribunal os prejuízos sofridos.
Eu não tenho dúvida nenhuma de que Trofa e Odivelas, pelo seu crescimento e desenvolvimento, deveriam ser concelho. Mas se calhar é tempo de pensar a sério no planeamento administrativo do País, para que não se repitam exemplos destes. É que, neste caso e se o Constitucional confirmar as duas sentenças anteriores, seremos todos a pagar o prejuízo que Santo Tirso sofreu por causa de uma decisão política, cujas repercussões não foram devidamente acauteladas.

quarta-feira, julho 04, 2007

Em reabilitação

Ainda me doi a alma. E cada vez que me sacudo, como o meu Tejo, vejo tudo a andar à roda. Não sei como é que ele consegue.

terça-feira, julho 03, 2007

Empregos para seniores

Ainda pensei que o governo português tinha percebido as virtudes do trabalho sénior, quando ouvi o secretário de Estado Fernando Medina avançar com um pacote de incentivos às empresas que decidam empregar trabalhadores desempregados com mais de 55 anos. Cada empregado com mais de 55 anos vale às empresas três anos de isenção de taxa social única e ainda doze meses de salários mínimos garantidos. Basta que as empresas celebrem com eles contratos sem termo certo. É óbvio que é, sobretudo, uma medida que visa combater o desemprego de uma faixa etária com menos oportunidade de trabalho e não combater a tão falada debilidade da segurança social ou, quiça, aproveitar como mais valia a experiência e competência de trabalhadores mais velhos. Andamos sempre a reboque do incentivo e do subsídio. Não há nada a fazer. Já escrevi o que penso aqui e tenho cá uma ideia que vou continuar a escrever sobre isto.

Desabafos

Nada me revolta mais do que a injustiça. Nada, mesmo nada! Rendo-me, desisto, vou para Cuba, enquanto o Fidel é vivo para ficar com um souvenir ou para a ilha do Gulliver ou para a Sibéria ou para a Terra do Fogo. Pr'o meio dos pinguins. Quero lá saber.
Hoje deve ser daqueles dias em que de manhã, já percebi que não devo sair de casa à noite.

segunda-feira, julho 02, 2007

Contradições

Gosto do nosso doce namoro. Gosto quando me afagas e sentes que me deixas água na boca. Sei que mentes e me enganas todos os dias, mas finjo e deixo-me embalar pela tua paixão, numa volúpia que me transporta para lá das nossas serras. Ignoro de que são feitos os fios com que me prendeste e não quero ouvir o restolhar desta ilusão. Fazes-me falta.

Um dia no hospital

Domingo. 10h30. Um familiar meu sente-se mal e levo-o à urgência de S. José. É um doente oncológico, com um quadro clínico de infecção urinária grave.
Explico isso na admissão de doentes, manifestamente sobrelotada, na maioria dos casos ainda com reminisciências da noite de sábado.
11h. Chamada para a Triagem. Confirmado o pré-diagnostico que tinha apresentado e doente encaminhado para cirurgia.
11h15 Chamada para a Consulta. Médico atencioso e cuidadoso, percebe a gravidade do problema, prescreve análises de sangue e urina para confirmar o grau da infecção. Teríamos de esperar hora se meia pelo resultado. À uma da tarde estaríamos despachados.
Aguardamos na sala de espera, onde se acumula toda a espécie de doentes: velhinhos sem companhia, bêbados em ressaca, indisposições, entre outros. Uma pequena divisão para as crianças, vazia de brinquedos e, felizmente, de meninos, confere um ambiente de non sense a todo o espaço, onde uma televisão vai debitando programas de entretenimento.
Temos fome. Na máquina de comida rápida, as sandes e os bolos tem um aspecto de provocar uma gastrite a quem olhar para elas. Optámos por um chocolate embalado.
13h Como não houve qualquer contacto, vou ao gabinete de urgência e apercebo-me que o meu familiar tem apenas uma pessoa à sua frente.
14h Não há chamadas para aquele gabinete há mais de uma hora. Insisto com a funcionária do gabinete de apoio ao doente para me informar sobre o que se passa.
14h10 A funcionária volta do gabinete médico e diz-me que as chamadas estão um pouco atrasadas porque os médicos foram almoçar.
15h Recomeçam as chamadas para o gabinete de cirurgia.
15h30h O meu familiar é chamado. Médico pede repetição urgente de um tipo de análise.
16.15h O meu familiar é de novo chamado à consulta e recebe ordem de internamento imediato devido a uma infecção urinária muito grave, com possível falência de um rim.
16h45 Abandono finalmente o hospital.
Por mais vezes que seja confrontada com o sistema nacional de saúde, acho que nunca vou aceitar esta forma de funcionamento. E não me digam que é o sistema, porque o sistema é feito por pessoas. Custava muito ao médico (por exemplo) informar os doentes em espera da hora prevísivel de atendimento, tendo em conta o seu necessário almoço? É que quem está fragilizado, mais fragilizado fica por se encontrar num ambiente hospitalar, sem conforto, sem informação e sem comida. Não é admissível que os hospitais continuem a funcionar como depósitos administrativos de tratamento de doenças. Basta! É preciso outra lógica nos cuidados de saúde, sejam eles urgentes ou não.

sábado, junho 30, 2007

Teias de sangue frio


Não gosto de répteis e de aranhas. Não é só pelo veneno é mesmo pela personalidade. Trocam de pele, têm um olhar incisivo e calculista, metem-se nos lugares mais recôndidos e atacam inesperadamente de forma cobarde, apanhando de surpresa as suas incautas vítimas. Quando acossados, dispararam o seu veneno em todas as direcções, de forma mortal. Se falassem, seriam grosseiros e impiedosos. Acredito, no entanto, que sabem comunicar.
Com as aranhas o desagradável fica apenas um pouco mais lento, mas acho que o que não gosto mesmo é das teias que vão tecendo por todo o lado, procurando capturar novas presas para devorar de mansinho. Tecer teias, apercebo-me agora, dá uma bela expressão literária.
Uns e outros vivem do encantamento mágico que produzem nas vítimas, deixando-as tão paralisadas que deixam de ver.
Mesmo já tendo caído de dois cavalos (ninguém me mandou repetir a experiência) e de ter batido o recorde dos cem metros à frente de um bode ciumento, prefiro os animais de grande porte e, sobretudo, os de sangue verdadeiramente quente, como os cavalos, os bois, os mamutes e já agora em homenagem ao nosso querido ministro Mário Lino, porque não os dromedários.

sexta-feira, junho 29, 2007

A primeira vez

Ontem, pela primeira vez (como é possível????), percorri por necessidade imperiosa o túnel do Marquês de Pombal. Como todas as primeiras vezes, foi inesquecível, mas nada de especial.

De balde na mão...

A liderança do óscar "se não sei o que digo, porque não consigo ficar calado' está cada vez mais concorrida. Depois de Manuel Pinho, ministro da Economia, e de Mário Lino, das Obras Públicas, partilharem o protagonismo, lançou-se agora num folêgo súbito na corrida para a meta, o ministro da Saúde Correia de Campos, que ontem exonerou, por despacho, a directora do centro de saúde de Vieira do Minho por manifesta incapacidade em manter limpas e expurgadas de toda a mancha as paredes daquela nobre instalação do Estado.

quinta-feira, junho 28, 2007

Peça a peça

A paciência é uma virtude. Esperar, observar, analisar fazem parte do cenário. Mas, por norma, só tenho paciência quando a isso sou obrigada. Não gosto de esperar e tenho um conflito com o tempo. Depois, na prática, a curiosidade, talvez fruto de deformação profissional, vai-se impondo e peça a peça, devagarinho, vou construindo puzzles, tendo em atenção as peças que tenho à escolha e procurando perceber quais as outras que estão ali apenas para me confudir.
Básica, uso sempre a mesma técnica: começo pela moldura e vou encaixando, isoladamente, pequenos conjuntos de peças, com os elementos essenciais da fotografia. Para complicar, há sempre quem passe pelo puzzle e me desloque, distraídamente, uma peça. Agora uma, depois outra, num processo tão continuado como súbtil de manipulação.
Mesmo irascível com a demora, sou incapaz de desistir a meio de qualquer coisa. Mas há dias, como hoje, em que a falta de paciência vem à tona e só me apetece sacudir com a eficácia do meu Tejo, porque a fotografia do puzzle já deixou de fazer sentido. Em dias assim, tenho de dar razão à Ninas e rever as minhas prioridades.

quarta-feira, junho 27, 2007

Trabalho mais moderno e sem direitos

A comissão do livro branco que está a estudar a revisão do Código do Trabalho, a pedido do governo, por acaso um governo de esquerda, apresentou propostas com o intuito de modernizar e adaptar ao século XXI as relações laborais. Daquilo que hoje li e ouvi recolhi estas impressões.
1. A jornada diária de trabalho deixa de ter um horário de oito horas. Haverá apenas que respeitar tectos horários semanais.
2. A entidade patronal pode reduzir os salários dos seus funcionários por razões objectivas, como as dificuldades económicas da empresa. Podem os trabalhadores ficar descansados porque essa situação só aconteceria com o seu acordo e com o aval da Inspecção de Trabalho. Ufa!
3. As remunerações complementares (diuturnidades, regimes de isenção de horários, exclusividade, entre outras) deixam de contar para o subsídio de férias. Na prática o subsídio de férias passa a ser igual ao salário base.
4. A hora de almoço passa a ser de meia-hora
5. A majoração do período de férias em três dias é anulada. Passa a haver apenas a compensação de um dia. O período anual de descanso é assim reduzido de 25 para 23 dias.
6. O empregador ganha legitimidade para despedir funcionários por inadaptação.

De repente apetecia-me dizer 'Volta Bagão, estás perdoado'. E nem consigo dizer mais nada, porque estupidifiquei.