Domingo. 10h30. Um familiar meu sente-se mal e levo-o à urgência de S. José. É um doente oncológico, com um quadro clínico de infecção urinária grave.
Explico isso na admissão de doentes, manifestamente sobrelotada, na maioria dos casos ainda com reminisciências da noite de sábado.
11h. Chamada para a Triagem. Confirmado o pré-diagnostico que tinha apresentado e doente encaminhado para cirurgia.
11h15 Chamada para a Consulta. Médico atencioso e cuidadoso, percebe a gravidade do problema, prescreve análises de sangue e urina para confirmar o grau da infecção. Teríamos de esperar hora se meia pelo resultado. À uma da tarde estaríamos despachados.
Aguardamos na sala de espera, onde se acumula toda a espécie de doentes: velhinhos sem companhia, bêbados em ressaca, indisposições, entre outros. Uma pequena divisão para as crianças, vazia de brinquedos e, felizmente, de meninos, confere um ambiente de non sense a todo o espaço, onde uma televisão vai debitando programas de entretenimento.
Temos fome. Na máquina de comida rápida, as sandes e os bolos tem um aspecto de provocar uma gastrite a quem olhar para elas. Optámos por um chocolate embalado.
13h Como não houve qualquer contacto, vou ao gabinete de urgência e apercebo-me que o meu familiar tem apenas uma pessoa à sua frente.
14h Não há chamadas para aquele gabinete há mais de uma hora. Insisto com a funcionária do gabinete de apoio ao doente para me informar sobre o que se passa.
14h10 A funcionária volta do gabinete médico e diz-me que as chamadas estão um pouco atrasadas porque os médicos foram almoçar.
15h Recomeçam as chamadas para o gabinete de cirurgia.
15h30h O meu familiar é chamado. Médico pede repetição urgente de um tipo de análise.
16.15h O meu familiar é de novo chamado à consulta e recebe ordem de internamento imediato devido a uma infecção urinária muito grave, com possível falência de um rim.
16h45 Abandono finalmente o hospital.
Por mais vezes que seja confrontada com o sistema nacional de saúde, acho que nunca vou aceitar esta forma de funcionamento. E não me digam que é o sistema, porque o sistema é feito por pessoas. Custava muito ao médico (por exemplo) informar os doentes em espera da hora prevísivel de atendimento, tendo em conta o seu necessário almoço? É que quem está fragilizado, mais fragilizado fica por se encontrar num ambiente hospitalar, sem conforto, sem informação e sem comida. Não é admissível que os hospitais continuem a funcionar como depósitos administrativos de tratamento de doenças. Basta! É preciso outra lógica nos cuidados de saúde, sejam eles urgentes ou não.