sexta-feira, julho 27, 2007

Tempos de conflito

Começo a acreditar que somos conflituosos por natureza. Tudo nos serve para causar atrito e à mínima coisa salta-nos a mola. Gastamos energia demais com coisas que só nos desgastam, resistimos gratuitamente à mudança e, por vezes, somos malcriados e até insultuosos com os outros. Não temos paciência.
Tirando a parte do insulto, visto o fato completo e acrescento-lhe uma boa dose de irascibilidade, com a qual, a conselho clínico, vou limpando a bílis. Mas há uma coisa que, de facto, me tira do sério: aperceber-me que vem alguém atrás de mim, num centro comercial por exemplo, e ter o cuidado de segurar a porta para que a essa pessoa não leve com o vidro no nariz. É certo que já recebi muitos obrigado, mas na maioria dos casos as pessoas passam por mim, a segurar-lhes a porta, como se fosse transparente.
Depois da estupefacção, comecei eu a agradecer a oportunidade que me deram de as servir e como surpresa acumula surpresa percebi que as pessoas nem ouvem. Vai daí, sou mesmo transparente e não sabia.
(E assim se perdem, ingloriamente, tantos traumatismos no nariz).

Os radares e a velocidade de Lisboa

Automobilistas mais zelosos e preocupados com as fotografias dos radares já se começam a mobilizar insultando todos os poderes administrativos contra os radares instalados em algumas ruas de Lisboa.
Tirando a parte do insultos, até poderia compreender. Há vias onde me parece, absolutamente idiota colocar radares de excesso de velocidade, caso do prolongamento da Avenida dos Estados Unidos da América, uma via sem acesso pedonal e em viaduto. Obrigar a circulação a 50 Km/h ali, parece-me não fazer sentido algum como, pelo contrário, fomenta uma situação de risco acrescido, porque toda a concepção da via, com separador central e três largas faixas de rodagem, induz a uma via de circulação rápida e de escoamento de tráfego.
Já tenho menos sensibilidade para perceber as críticas em relação a outros locais, percursos completamente urbanos, atravessados constantemente por peões.
É impressionante como algumas pessoas, pressionadas pelo valor do dinheiro, reagem contra as regras. Mas sempre fazendo passar uma aura de bom senso e de civilidade. Foi assim com o álcool, é assim agora com a velocidade. Há 1o anos morriam 2000 mil pessoas por ano em Portugal em resultado de acidentes. O Estado era acusado de não se preocupar e o acidente de viação era uma fatalidade que só acontecia aos outros.
Hoje morrem pouco mais de 1000 pessoas nas estradas e continuamos a ser dos condutores mais desregrados e mais indisciplinados.
Ainda não vi nenhum destes zelosos condutores, que se apressaram a assinar insultuosas petições online, preocupado com o facto de mais de mil e tal automobilistas terem sido apanhados a circular a mais de 80 km/h na Avenida Infante D. Henrique, por sinal uma das vias de Lisboa onde o índice de atropelamentos é maior.

terça-feira, julho 24, 2007

Sem Norte

Ando há um mês à bulha com o GPS e ainda não me consigo orientar.
Não sou de insultar pessoas, mas acho até que a Catarina é mesmo tonton, pois quando a mando ir para a Rua da Glória ela indica-me a Rua da Alfândega e diz displicentemente: "Chegou ao seu destino". Talvez tivesse mais mais sorte com o Joaquim, mas a minha opção não foi essa.
Como a conservadorona que me orgulho de ser, estou em vias de voltar a pegar no mapa do ACP e nas cartas militares quando me quiser meter em aventuras. É que este meu fraco pela tecnologia, está-se a revelar uma fraqueza.

As duas faces dos erros: os públicos e os privados

O Ministro das Finanças, de tarde, reagiu à notícia de manhã do Público e reconheceu que o Ministério das Finanças, sem cobertura legal, cobrou o Pagamento Especial por Conta (PEC) de 2003, às empresas que inciaram a actividade no ano anterior. Como se não bastasse, as empresas faltosas foram notificadas das coimas e algumas chegaram a pagá-las.
O ministro não sabe quantos empresas, nem qual o montante que o Estado arrecadou indevidamente durante estes quatro anos. Mas reconheceu o erro, já não é mau.
Já em relação aos particulares a situação parece-me ser um pouco diferente.
Há dois anos, ao verificar que os meus pais não tinham entregue uma declaração de IRS do ano anterior, zelosa, preenchi a declaração e entreguei-a nas finanças. Naquele ano, o rendimento e a situação dos meus pais não carecia da obrigatoriedade daquela declaração, mas fui informada de que teria de a preencher na mesma.
Qual não foi o meu espanto quando, seis meses depois, os meus pais receberam uma coima de 50€ relativa à entrega da declaração fora de prazo. E lá andei eu em bolandas, com requerimentos atrás de requerimentos, justificando que fora mal informada quando me disseram que tinha de preencher a declaração, quando, de facto, não tinha.
A serem multados, os meus pais seriam mas apenas pelo excesso de zelo da filha.
E ainda aguardo. Ou a coima com juros ou a carta da Administração Fiscal reconhecendo o erro no processamento da multa, que ao que parece "é automático".

segunda-feira, julho 23, 2007

O dever de protecção de um pai

Um pai "porreiraço" decidiu levar o filho de 10 anos às tradicionais festas de San Firmin, caracterizadas pela célebre largada de touros pelas ruas da na cidade espanhola de Pamplona.
Um repórter fotográfico do El Mundo fixou na objectiva a imagem de pai e filho a correrem à frente de um touro. A foto correu mundo. A mãe do menor não gostou do que viu e denunciou a atitude irresponsável do pai, a quem a lei confere poderes especiais de protecção do filho, até aos 18 anos.
As autoridades deram razão à mãe e proibiram o pai de se aproximar do menor (que passava férias com ele), por considerarem que o pai não salvaguardou os superiores interesses da criança, expondo-a desnecessariamente a uma situação de perigo - As festas de Pamplona terminam, normalmente, com um rasto de feridos e mortos (nos últimos anos contabilizaram-se 13 mortos).

Hoje leio nos jornais que apesar de condenado por violação do seu dever de prudência, enquanto progenitor, o pai da criança foi agora recebido como um herói pelos convivas de Pamplona, que o homenagearam com vivas num estádio qualquer.
Perante isto, nada, mas mesmo nada, me pode já surpreender.

domingo, julho 22, 2007

Anedota

As confederações patronais querem voltar a despedir os trabalhadores por motivos políticos ou ideológicos. José Socrates "nem quer acreditar".
Fixe. Assim faz de conta que não aconteceu nada. Aliás, há notícias que só valem pelo título. Como esta.

O milagre da duplicação dos meninos

O primeiro-ministro resistiu a decretar políticas de apoio à maternidade.
Os autarcas, sobretudo os do interior desertificado, há muito que enveredaram por políticas de descriminação positiva, procurando fixar população nos seus pobres territórios. Apesar dos apoios residuais, na maioria apenas simbólicos - 500 ou 1000 euros - foram alvo de críticas e acusados quererem fazer depender o nobre acto da concepção do vil metal.
A Administração Central do Estado foi a primeira a torcer o nariz a tais políticas. Já o mesmo não aconteceu em outros Estados, muito menos Nação do que o nosso. O apoio concedido por alemães - segundo creio 5000 mil euros por cada filho - e por espanhóis -2500 euros por criança - entrou no ouvido dos portugueses, sempre muito dados ao som dos números.Do lado de lá do risco da fronteira - que para José Saramago tem cada vez menos razão de existir -o José espanhol achou mesmo que o apoio à maternidade era um desígnio do Estado. e terá sido o suficiente, para o nosso José compreender e tirar o coelho da cartola, com a surpresa que convém à magia, durante o apropriado debate do Estado da Nação, em fim de sessão legislativa.
Juntando à revelação, a preocupação política com o envelhecimento social, o primeiro-ministro disponibilizou a antecipação do abono de família nos últimos seis meses de gravidez e o aumento substancial do apoio do Estado para quem tenha mais de um filho.
Parece-me bem.
E pela minha parte já estou em bicos de pés. Agora só não sei se devo ir já para a Terrugem de Baixo ou engravidar primeiro.

terça-feira, julho 17, 2007

Portugal, Portugal, Madeira à parte

As mulheres madeirenses que decidam interromper a gravidez até às dez semanas não o podem fazer na Região Autónoma, porque o presidente do Governo Regional, disse-o categoricamente, não disponibiliza os meios da região para fazer cumprir uma lei da República. As mulheres também não podem vir ao Continente fazê-lo porque não há há protocolo nesse sentido entre a Administração central e a Regional.
Portanto, uma das leis da República não se cumprirá numa zona do País e os cidadãos residentes nessa zona ficam excluídos do cumprimento dessa lei.
Há alguma coisa aqui que me faz crer que a RAM é um território independente de Portugal, que na gíria popular se designa por República das Bananas.

segunda-feira, julho 16, 2007

Flashes da noite eleitoral

  • A vitória do Partido Socialista em Lisboa festejada por simpatizantes do PS, mobilizados pelo partido desde o Norte do País, revela bem o entusiasmo dos lisboetas com a participação cívica e a vida política da sua cidade.
  • O terceiro lugar de Fernando Negrão, nas preferências dos lisboetas, apesar dos dislates do candidato sobre as estruturas administrativas da cidade e do País, mostra a fidelidade de um certo eleitorado PSD, que vota sempre na setinha a apontar o Céu, independentemente do cabeça de lista em causa.
  • Sem máquina partidárias a apoiá-los, os independentes Carmona Rodrigues e Helena Roseta, juntos, conseguiram quase tantos votos (32 mil e 20 mil respectivamente) como o vencedor António Costa (quase 58 mil)
  • A manutenção dos dois vereadores da CDU, Ruben Carvalho e Rita Magrinho, que nenhuma sondagem indicava.
  • A eleição de dois vereadores pelo Movimento Cidãdãos Por Lisboa - Helena Roseta e Manuel João Ramos.
  • A saída do CDS/PP do executivo da câmara

A paz em Lisboa

Lisboa à noite, serena. Desconheço a autoria da foto, portanto não a posso evocar. Recebi-a há muito tempo por email e guardei-a, como faço com tudo o que tem significado para mim. Agora deu-me vontade de a partilhar, provavelmente para me lembrar do meu amor por esta cidade e pelas suas pessoas. Só os que amamos nos conseguem magoar.

O sentir do BB sobre Lisboa

Com a vénia devido ao meu amigo e mestre Baptista Bastos, reproduzo a sua lúcida crónica no DN de hoje:
"A direita não sofreu uma derrota calamitosa, como afirmaram alguns preopinantes, tendo em conta que Carmona e Negrão obtiveram resultados surpreendentes. O facto, sendo um princípio de perplexidade, não deixa de fornecer o retrato inquietante do grau de exigência do eleitorado. E falhou, também, neste resultado, o princípio segundo o qual não se repete aquilo que não existe. E a vitória do PS parece-me representar o desespero de causa de um eleitorado que já nada sabe o que fazer, a não ser tentar atenuar o seu calvário.
O fenómeno Helena Roseta corresponde a outra procura. De quê? De qualquer perspectiva num teatro de sombras, que somente singulariza uma pequena revolta, simpática, sem dúvida, porém equívoca. O "sistema" manteve-se, intacto, tal como o pretendem os partidos, os interesses, os territórios de domínio. Manteve-se e funcionou na banalidade imperturbável, com as suas pequeninas religiões, as suas liturgias, as suas intermináveis transições de um lado para o mesmo lado.
Evidentemente, António Costa irá mexer em alguma coisa, mas tudo desemboca em múltiplas incertezas, uma das quais incide sobre os entendimentos pós-eleitorais. Nada de sobressaltos infundados. Nada de expectativas muito amplas. Costa foi o número dois num Governo que tem praticado malfeitorias inomináveis. Não acredito neste PS, porque não interpreta os valores da Esquerda: deixou de possuir imperativos morais, convicções, decência e projectos alternativos.
Eis porque não foi a Esquerda que ganhou a Câmara.

Votos (favas) contados(as)

O novo presidente da câmara municipal de Lisboa, António Costa, foi eleito com menos de um terço dos votos (quase 58 mil) dos 38% (197 mil) residentes de Lisboa que decidiram votar.

Sinceramente não me parece que tenha havido vencedores na noite de ontem, mas parece-me que houve muitos derrotados. A começar pela cidade e os seus cidadãos que abdicaram de um dos principais direitos e deveres de cidadania. Por culpa dos políticos? Por descrédito no sistema? Por desinteresse na participação política activa? Por comodismo?
Cada um terá tido as suas razões, mas eu penso que as pessoas estão cansadas e atingiram o auge (será?) do pior de todos os sintomas: estão-se nas tintas. Já não querem saber.
E não querer saber, a mim, que me corre a liberdade nas veias, assusta-me mais do que políticos corruptos ou ardilosos, porque contra esses eu consigo lutar. Contra o desinteresse dos meus iguais, faltam-me as armas e começa-me a faltar a força. E eu não quero isso para mim, para a minha cidade e para o meu futuro.

domingo, julho 15, 2007

A maior abstenção de sempre em Lisboa?

28%
Era a percentagem de votantes às 16 horas en Lisboa.
E agora, que irão estes políticos fazer? Assobiamos todos para o lado, porque os lisboetas foram para a praia, mesmo em dia de chuva?

Lisboetas, votem!

Façam uma pausa na ida à praia, mas não deixem de ir escolher o novo executivo da câmara de Lisboa para os próximos dois anos. Votar é o acto mais nobre da cidadania e para que hoje pudéssemos desfrutar dele muitas pessoas lutaram, sofreram e até morreram. Quanto mais não fosse, só pelo respeito devido a essa luta histórica de toda a humanidade não deveríamos desperdiçar o nosso direito de votar. Em liberdade.

sábado, julho 14, 2007

A consciência que me pasma

Na véspera de entrar em vigor a lei que despenaliza a interrupção voluntária da gravidez até às 9 semanas e seis dias, oiço que uma parte substancial dos hospitais públicos de todo o País não estão preparados para responder às solicitações, principalmente porque um número considerável de médicos se declarou objector de consciência. Eu pasmo. Não pelo direito dos médicos à sua sagrada objecção de consciência, mas pela evidente falta de resposta do sistema perante as necessidades que possam surgir. Mesmo com uma lei, não basta a decisão, difícil, dolorosa, das mulheres. O caminho continua a ser o da via torturosa da hipocrisia e do cinismo. Terão de continuar a lutar, a explicar, a dar justificações, a implorar. Enquanto o tempo vai passando.
P.S. Até agora ainda não percebi o que acontecerá a um médico que se declare objector de consciência no serviço público e no serviço privado dê nota de uma consciência mais libertina.

Navegação aérea interdita

Na sua incansável luta contra o narcotráfico, as autoridades venezuelanas decidiram que, a partir de agora, vão disparar primeiro e perguntar depois sobre todas as aeronaves que considerarem suspeitas de fazerem tráfico de cocaína. Por este andar, acho que até os pássaros vão evitar sobrevoar a Venezuela...

Música para os meus ouvidos


Andava há dias, sem saber porquê, com uma saudade imensa de rever o filme Era uma vez na América (Once upon a time in América, Sérgio Leone, 1984). Já lá vão mais de 20 anos, caramba, e em momentos especiais a memória devolve-me as imagens de uma dança ao luar, no terraço de um edifício novaiorquino, em tons de azul, ao som de uma banda sonora inesquecível. É, e será sempre, um dos filmes da minha vida.
Hoje, quando acordei, juntei às memórias o solo de violiono da Sinned O'Connor na sua versão de Don't cry for me Argentina e compreendi que a minha saudade é mesmo do doce som do violino.

Refletir para decidir

Estou em período de reflexão!
Quer-me cá parecer que vai haver surpresas no acto eleitoral de amanhã. Já estou a preparar a sangria. Para esquecer ou comemorar. Logo se verá.

quinta-feira, julho 12, 2007

Ei-las, gordas e macias


Prometido é devido. Ponham os olhos no aspecto corpulento das sardinhas, na robustez das batatas e no corte sensível da alface e da cebola. Bom apetite!

Gordas, macias e suculentas

É assim que eu gosto delas. Só as espinhas atrapalharam o degustar, mais pelo tempo que não tinha, do que pela arrelia que me pudessem causar. Sim, finalmente, hoje comi sardinhas ao almoço e tive de ir a uma tasca da Rua da Glória. E comi uma juliana de alface e cebola temperada com azeite de Moura (leu bem, Pisca!).
Faltam-me recursos para passar a foto para aqui, mas logo prometo revelar a prova.
E pronto, agora só me fica a faltar mesmo a sangria, porque achei que, atendendo ao trabalho que me espera, era melhor não me deixar tentar com a vontade de dormir a sesta.

O meu reino entre os cucos

Sei que fica em Bragança, porque o Google me disse, e não sei mais mais nada. Mas despertou em mim a memória das casas de Montesinho e do cantar dos cucos a desoras, no alto dos Ulmeiros. Montesinho que, com o Sabugueiro na Serra da Estrela, é a aldeia mais alta de Portugal (a 950 metros de altitude). Foi ali que, pela primeira vez, me caiu a pele das orelhas durante um pecurso pedestre não controlado, há 15 anos, debaixo de tórrido Sol de Abril.
Foi também nessa altura que descobri que a cerveja quente até nem era má de todo e que ensinamos a uns checos, aventureiros como nós, que o vermelho das cartas de jogar, em português, não se dizia exactamente tinto.

O meu corpo hoje está aqui, mas o meu espírito, esse, bem esse garanto que está por lá. A ouvir os cucos.

terça-feira, julho 10, 2007

Memorandum (em latim)

A Fazer no próximos dias:
a) Comer uma travessa de sardinha assada, com batata cozida, salada de alface e cebola e emborcar um jarro de sangria feita por mim
b) Fazer a digestão e mergulhar na piscina
c) Ir à praia e andar quilómetros na linha d'água
d) Fazer uma caminhada num sítio isolado
e) Continuar a fazer de conta que não percebo as provocações, os desafios e o engodo

E, entretanto, trabalhar, trabalhar, trabalhar.

segunda-feira, julho 09, 2007

Geração 500 euros

O meu DN dá hoje eco do emprego da moda, nos call centers. Trabalho temporário, sem direitos, a troco de 500 euros por mês, tornado a única alternativa de trabalho para a geração mais jovem. Mas não se pense que esta é apenas uma função desempenhada por jovens licenciados, acabadinhos de sair da universidade e em começo de vida. Há cada vez mais trabalhadores seniores a fazerem turnos pós-laborais em call centers, depois de cumprirem as oito horas de trabalho em outra empresa. O dia de trabalho é hoje de 12 horas para muitas familías. Por isso é sempre bonito ouvir os políticos falarem da importância da família numa sociedade que vai ficando cada vez mais desumanizada e sem tempo, porque o dinheiro não chega.

domingo, julho 08, 2007

A maravilhosa sensação de pertencer a uma minoria

Consegui meter três das minhas maravilhas no conjunto das sete maravilhas portuguesas. E fico com esta deliciosa sensação - a que já estou habituada e não é má de todo - de pertencer a uma minoria. Apesar de tudo, dirão alguns, não foi mau, mas não deixo de ficar de queixada caída por perceber que, para a maioria dos portugueses votantes, o Convento de Cristo, em Tomar, por exemplo, não é uma obra assim tão extraordinária. Será que votámos, apenas, pelos monumentos que mais conhecíamos? É a única explicação que encontro para a inclusão da Torre de Belém nestes 7. E já que era "obrigatório" meter algum património de Lisboa, que esse fosse representado pelos Jerónimos. É que à frente da Torre de Belém, em minha opinião, até é mais interessante o Largo do Chafariz de Dentro, em Alfama, ou o Panteão Nacional.


Foi a seguinte a votação oficial:
1.Mosteiro de Alcobaça
2. Mosteiros dos Jerónimos
3. Palácio da Pena
4. Mosteiro da Batalha
5. Castelo de Óbidos
6. Torre de Belém
7. Castelo de Guimarães

Eu teria posto o Palácio da Pena em 5ºlugar, o Castelo de Óbidos em 6º e, por fim, coincidimos eu e a maioria com o Castelo de Guimarães em 7º lugar.

Os meus quatro primeiros não couberam nas escolhas finais e eram: O Castelo de Almourol, em Constância, o Convento de Cristo, em Tomar, a Fortificação de Monsaraz e o Paço Ducal de Vila Viçosa.

sexta-feira, julho 06, 2007

A segunda vida do candidato

O candidato socialista à presidência da Câmara de Lisboa, António Costa, inaugura amanhã a sua sede de campanha no mundo virtual Second Life. Diz-me a Agência Lusa que o seu personagem aparece mais magro e sem óculos e que o edifício, modernaço, é uma estrutura de arquitectura contemporânea à base de vidro. Safa, ainda bem que é virtual. Imagem se houvesse um terramoto a sério, a quantidade de cacos que tinhamos de apanhar. Cá para mim, tenho de admitir que tenho muitas dificuldades em conseguir dirigir uma só vida, quanto mais uma vida dupla.

Saberes

O meu puto, convencido de que me conhece bem, saiu-se com esta: "Tens esse ar de má, mas no fundo és um coração de manteiga". E pronto, assim se vai a autoridade de uma mãe.

Equipamentos simpáticos

Confesso aqui a minha simpatia pela cor do equipamento secundário do Benfica. Acho que o cor-de-rosa é o máximo. Apesar de tudo, deixo aqui a minha solidariedade com os vermelhos (não disse lampiões, anotem). É que a seguir a uma vem logo outra: depois das camisolas só faltava mesmo era o negócio da China. O que prova, mais uma vez, a veracidade da célebre Lei de Murphy: Por muito más que estejam as coisas, podem sempre piorar.

Uma vela na tempestade


Não sou especialmente adepta de Salvador Dali, mas retirei esta imagem de um conjunto de pinturas do pai do surrealismo, que a Marmar me mandou. É uma imagem de esperança. E eu gosto. Acho que tenho de voltar a dar o benefício da dúvida ao catalão. Ou então deve ser deste bafo quente que me está a tolher o espírito terreno que me gabo de possuir. Sei apenas que me fez recordar um provérbio (cuja autoria desconheço) que desde miúda adoptei, nos meus rascunhos e nos rabiscos com que pintalgava os cadernos escolares: Mais vale acender uma vela que amaldiçoar a escuridão. Os faróis fazem parte do meu imaginário.

quinta-feira, julho 05, 2007

Um requerimento para o IVA

Agrada-me a devolução do IVA sobre os automóveis novos comprados há menos de oito anos. Não que tenha muita fé nisso, mas porque nos dias que correm aceitamos de bom grado qualquer esperançazita. Parece que, apesar de avisado pela União Europeia, o governo (honra seja feita o anterior) andou a cobrar IVA em cima de outros dois impostos: o extinto Imposto Automóvel e o novo Imposto sobre as Viaturas. Belo. Se for como a União preconiza, bem pode o Ministério das Finanças ir preparando 1,8 mil milhões de euros (segundo o meu DN).
Apenas um reparo: parece que se for assim os interessados terão de ir para Tribunal para reclamar essa verba. Será que convém ao Estado entupir ainda mais os tribunais, apenas com o fito de tornar ineficaz uma obrigação. Se for assim, só espero que da União venham directrizes claras para que baste um requerimento para solicitar a devolução do IVA. Burocracia por burocracia...

Más decisões políticas pagas por todos

A Câmara Municipal de Santo Tirso está na eminência de receber seis milhões de euros do Estado português a titulo de compensação por perdas e danos resultantes da desanexação de parte do seu território, o qual veio a dar origem ao concelho de Trofa. É a segunda decisão judicial que dá razão aos argumentos de Santo Tirso, restando agora ao Estado um último recurso para o Tribunal Constitucional.
É interessante este processo pelo que representa sobre as políticas que têm sido seguidas de divisão administrativa do País, sempre dirigidas por critérios ad-hoc e impulsionados por vontade partidárias, ao sabor dos dirigentes do momento.
Sou favorável à descentralização administrativa do Estado, em consonância com o principio da subsidiariedade, que torna a governação tão mais eficaz, quanto mais próxima estiver dos cidadãos. Por isso, em teoria, sou favorável à criação de mais concelhos, em locais onde tal se justifique pela existência de pessoas, como sou favorável à extinção de alguns, onde a densidade populacional ou razões históricas não justifiquem a sua manutenção. Sou favorável, por exemplo, a numa nova reorganização administrativa do concelho de Lisboa.
Visto de fora parece-me que Santo Tirso tem razões para se sentir lesado, pois foi expurgado de uma importante fatia territorial, com a consequente mais valia financeira que tal território lhe trazia. E sem essa parte de capital, que agora a câmara reclama em tribunal, quem ficou prejudicada foi a população de Santo Tirso. Pior ainda, com a criação do novo concelho, Santo Tirso foi obrigado a facultar pessoal e a pagar um terço dos salários dos novos funcionários municipais.
Curioso é observar agora que Loures, que na mesma ocasião perdeu o território do novo concelho de Odivelas, espere agora o resultado da iniciativa pioneira de Santo Tirso, para também vir reclamar em tribunal os prejuízos sofridos.
Eu não tenho dúvida nenhuma de que Trofa e Odivelas, pelo seu crescimento e desenvolvimento, deveriam ser concelho. Mas se calhar é tempo de pensar a sério no planeamento administrativo do País, para que não se repitam exemplos destes. É que, neste caso e se o Constitucional confirmar as duas sentenças anteriores, seremos todos a pagar o prejuízo que Santo Tirso sofreu por causa de uma decisão política, cujas repercussões não foram devidamente acauteladas.

quarta-feira, julho 04, 2007

Em reabilitação

Ainda me doi a alma. E cada vez que me sacudo, como o meu Tejo, vejo tudo a andar à roda. Não sei como é que ele consegue.

terça-feira, julho 03, 2007

Empregos para seniores

Ainda pensei que o governo português tinha percebido as virtudes do trabalho sénior, quando ouvi o secretário de Estado Fernando Medina avançar com um pacote de incentivos às empresas que decidam empregar trabalhadores desempregados com mais de 55 anos. Cada empregado com mais de 55 anos vale às empresas três anos de isenção de taxa social única e ainda doze meses de salários mínimos garantidos. Basta que as empresas celebrem com eles contratos sem termo certo. É óbvio que é, sobretudo, uma medida que visa combater o desemprego de uma faixa etária com menos oportunidade de trabalho e não combater a tão falada debilidade da segurança social ou, quiça, aproveitar como mais valia a experiência e competência de trabalhadores mais velhos. Andamos sempre a reboque do incentivo e do subsídio. Não há nada a fazer. Já escrevi o que penso aqui e tenho cá uma ideia que vou continuar a escrever sobre isto.

Desabafos

Nada me revolta mais do que a injustiça. Nada, mesmo nada! Rendo-me, desisto, vou para Cuba, enquanto o Fidel é vivo para ficar com um souvenir ou para a ilha do Gulliver ou para a Sibéria ou para a Terra do Fogo. Pr'o meio dos pinguins. Quero lá saber.
Hoje deve ser daqueles dias em que de manhã, já percebi que não devo sair de casa à noite.

segunda-feira, julho 02, 2007

Contradições

Gosto do nosso doce namoro. Gosto quando me afagas e sentes que me deixas água na boca. Sei que mentes e me enganas todos os dias, mas finjo e deixo-me embalar pela tua paixão, numa volúpia que me transporta para lá das nossas serras. Ignoro de que são feitos os fios com que me prendeste e não quero ouvir o restolhar desta ilusão. Fazes-me falta.

Um dia no hospital

Domingo. 10h30. Um familiar meu sente-se mal e levo-o à urgência de S. José. É um doente oncológico, com um quadro clínico de infecção urinária grave.
Explico isso na admissão de doentes, manifestamente sobrelotada, na maioria dos casos ainda com reminisciências da noite de sábado.
11h. Chamada para a Triagem. Confirmado o pré-diagnostico que tinha apresentado e doente encaminhado para cirurgia.
11h15 Chamada para a Consulta. Médico atencioso e cuidadoso, percebe a gravidade do problema, prescreve análises de sangue e urina para confirmar o grau da infecção. Teríamos de esperar hora se meia pelo resultado. À uma da tarde estaríamos despachados.
Aguardamos na sala de espera, onde se acumula toda a espécie de doentes: velhinhos sem companhia, bêbados em ressaca, indisposições, entre outros. Uma pequena divisão para as crianças, vazia de brinquedos e, felizmente, de meninos, confere um ambiente de non sense a todo o espaço, onde uma televisão vai debitando programas de entretenimento.
Temos fome. Na máquina de comida rápida, as sandes e os bolos tem um aspecto de provocar uma gastrite a quem olhar para elas. Optámos por um chocolate embalado.
13h Como não houve qualquer contacto, vou ao gabinete de urgência e apercebo-me que o meu familiar tem apenas uma pessoa à sua frente.
14h Não há chamadas para aquele gabinete há mais de uma hora. Insisto com a funcionária do gabinete de apoio ao doente para me informar sobre o que se passa.
14h10 A funcionária volta do gabinete médico e diz-me que as chamadas estão um pouco atrasadas porque os médicos foram almoçar.
15h Recomeçam as chamadas para o gabinete de cirurgia.
15h30h O meu familiar é chamado. Médico pede repetição urgente de um tipo de análise.
16.15h O meu familiar é de novo chamado à consulta e recebe ordem de internamento imediato devido a uma infecção urinária muito grave, com possível falência de um rim.
16h45 Abandono finalmente o hospital.
Por mais vezes que seja confrontada com o sistema nacional de saúde, acho que nunca vou aceitar esta forma de funcionamento. E não me digam que é o sistema, porque o sistema é feito por pessoas. Custava muito ao médico (por exemplo) informar os doentes em espera da hora prevísivel de atendimento, tendo em conta o seu necessário almoço? É que quem está fragilizado, mais fragilizado fica por se encontrar num ambiente hospitalar, sem conforto, sem informação e sem comida. Não é admissível que os hospitais continuem a funcionar como depósitos administrativos de tratamento de doenças. Basta! É preciso outra lógica nos cuidados de saúde, sejam eles urgentes ou não.

sábado, junho 30, 2007

Teias de sangue frio


Não gosto de répteis e de aranhas. Não é só pelo veneno é mesmo pela personalidade. Trocam de pele, têm um olhar incisivo e calculista, metem-se nos lugares mais recôndidos e atacam inesperadamente de forma cobarde, apanhando de surpresa as suas incautas vítimas. Quando acossados, dispararam o seu veneno em todas as direcções, de forma mortal. Se falassem, seriam grosseiros e impiedosos. Acredito, no entanto, que sabem comunicar.
Com as aranhas o desagradável fica apenas um pouco mais lento, mas acho que o que não gosto mesmo é das teias que vão tecendo por todo o lado, procurando capturar novas presas para devorar de mansinho. Tecer teias, apercebo-me agora, dá uma bela expressão literária.
Uns e outros vivem do encantamento mágico que produzem nas vítimas, deixando-as tão paralisadas que deixam de ver.
Mesmo já tendo caído de dois cavalos (ninguém me mandou repetir a experiência) e de ter batido o recorde dos cem metros à frente de um bode ciumento, prefiro os animais de grande porte e, sobretudo, os de sangue verdadeiramente quente, como os cavalos, os bois, os mamutes e já agora em homenagem ao nosso querido ministro Mário Lino, porque não os dromedários.

sexta-feira, junho 29, 2007

A primeira vez

Ontem, pela primeira vez (como é possível????), percorri por necessidade imperiosa o túnel do Marquês de Pombal. Como todas as primeiras vezes, foi inesquecível, mas nada de especial.

De balde na mão...

A liderança do óscar "se não sei o que digo, porque não consigo ficar calado' está cada vez mais concorrida. Depois de Manuel Pinho, ministro da Economia, e de Mário Lino, das Obras Públicas, partilharem o protagonismo, lançou-se agora num folêgo súbito na corrida para a meta, o ministro da Saúde Correia de Campos, que ontem exonerou, por despacho, a directora do centro de saúde de Vieira do Minho por manifesta incapacidade em manter limpas e expurgadas de toda a mancha as paredes daquela nobre instalação do Estado.

quinta-feira, junho 28, 2007

Peça a peça

A paciência é uma virtude. Esperar, observar, analisar fazem parte do cenário. Mas, por norma, só tenho paciência quando a isso sou obrigada. Não gosto de esperar e tenho um conflito com o tempo. Depois, na prática, a curiosidade, talvez fruto de deformação profissional, vai-se impondo e peça a peça, devagarinho, vou construindo puzzles, tendo em atenção as peças que tenho à escolha e procurando perceber quais as outras que estão ali apenas para me confudir.
Básica, uso sempre a mesma técnica: começo pela moldura e vou encaixando, isoladamente, pequenos conjuntos de peças, com os elementos essenciais da fotografia. Para complicar, há sempre quem passe pelo puzzle e me desloque, distraídamente, uma peça. Agora uma, depois outra, num processo tão continuado como súbtil de manipulação.
Mesmo irascível com a demora, sou incapaz de desistir a meio de qualquer coisa. Mas há dias, como hoje, em que a falta de paciência vem à tona e só me apetece sacudir com a eficácia do meu Tejo, porque a fotografia do puzzle já deixou de fazer sentido. Em dias assim, tenho de dar razão à Ninas e rever as minhas prioridades.

quarta-feira, junho 27, 2007

Trabalho mais moderno e sem direitos

A comissão do livro branco que está a estudar a revisão do Código do Trabalho, a pedido do governo, por acaso um governo de esquerda, apresentou propostas com o intuito de modernizar e adaptar ao século XXI as relações laborais. Daquilo que hoje li e ouvi recolhi estas impressões.
1. A jornada diária de trabalho deixa de ter um horário de oito horas. Haverá apenas que respeitar tectos horários semanais.
2. A entidade patronal pode reduzir os salários dos seus funcionários por razões objectivas, como as dificuldades económicas da empresa. Podem os trabalhadores ficar descansados porque essa situação só aconteceria com o seu acordo e com o aval da Inspecção de Trabalho. Ufa!
3. As remunerações complementares (diuturnidades, regimes de isenção de horários, exclusividade, entre outras) deixam de contar para o subsídio de férias. Na prática o subsídio de férias passa a ser igual ao salário base.
4. A hora de almoço passa a ser de meia-hora
5. A majoração do período de férias em três dias é anulada. Passa a haver apenas a compensação de um dia. O período anual de descanso é assim reduzido de 25 para 23 dias.
6. O empregador ganha legitimidade para despedir funcionários por inadaptação.

De repente apetecia-me dizer 'Volta Bagão, estás perdoado'. E nem consigo dizer mais nada, porque estupidifiquei.

terça-feira, junho 26, 2007

Precisa-se governo para um candidato

Fernando Negrão protagonizou hoje o momento mais hilariante do dia, em entrevista ao RCP.

http://www.youtube.com/watch?v=-UoRlh4Z1mY

A mentira

Porque mentem as pessoas nas suas relações com os outros? Palavra que gostava de compreender. Um dia quem sabe.

segunda-feira, junho 25, 2007

Diz que é uma espécie de namoro (I)

Eles são dois políticos
a viver esperanças, a saber sorrir.
Ela tem cabelos louros,
ele poderá ter pelouros para repartir.

Numa ou outra ocasião
passaram mesmo à beira, mas sempre sem falar.
Trocaram olhares envergonhados
mas já eram namorados
sem ninguém suspeitar.

Foram juntos num outro dia, como por magia, almoçar em pé.
Ele lá lhe disse, a medo: 'O meu nome é Tó e o teu qual é?'
Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho: 'Sou simplesmente a Maria'.
Quando a noite o envolveu, ele adormeceu e sonhou com a tia...

Então, bate, bate coração
Louco, louco de ilusão
A cidade sem ti não tem valor.
Juntos temos tempo p'ra aprender,
Vai dar jeito p'ra crescer
O nosso comum amor.

Maria do Chiado
avivaste memórias,
deixaste mistério
Já o puseste a andar na lua,
no meio da rua e a chover a sério.

Ela quando lá o viu, encharcado e frio, quase o abraçou.
E lá disse a medo: "Olha Tó, sou profissional, aceito o teu amor, mas pela cidade me dou"

E agora, na campanha, dão os seus passeios, fazem muitos planos.
Querem dividir a câmara, tal como uma prenda que se dá nos anos.
E, num desses momentos, grandes sentimentos falaram por si.
Ele pegou na mão dela: 'Sabes, Maria, eu sempre gostei de ti...'

Adaptado de Cinderela, Carlos Paião

domingo, junho 24, 2007

Muito porto, pouco rio...

Gostei de ouvir António Costa dizer que a cidade tinha de ter outra relação com o Porto de Lisboa. Que a administração portuária deveria ser soberana apenas no que ao porto diz respeito. Já tinha gostado de ouvir Santana Lopes dizer o mesmo, mas, se a memória não me falha, o pouco que a cidade conquistou à Administração do Porto de Lisboa resultou apenas da forte oposição dos cidadãos ao famigerado POZOR.
Nunca vi nenhum governo legislar eficazmente sobre a soberania territorial dos municípios, no que aos portos diz respeito (entre outras coisas). Mas vejo sempre todos os candidatos a presidente da câmra de Lisboa reconhecerem o exagero da extensão e da soberania portuária numa cidade que tem uma das suas vantagens territoriais justamente no seu imenso rio.
Fica bem a António Costa reivindicar menos porto e mais rio para Lisboa (sem nenhuma ironia com o presidente da câmara do Porto).

sexta-feira, junho 22, 2007

Os slogans e as ideias para Lisboa

Nestes dias de pré-campanha eleitoral para o próximo governo da cidade de Lisboa confesso-me extasiada com a criatividade e a originalidade que leio nos outdoors ou nos lemas dos candidatos. Ei-los:
António Costa: Unir Lisboa
Carmona Rodrigues: O meu partido é Lisboa
Fernando Negrão: Lisboa a sério
Garcia Pereira: Salvar Lisboa
Helena Roseta: Cidadãos por Lisboa
Manuel Monteiro: Lisboa é capital
Pedro Quartin Graça: Lisboa que te quero verde
Pinto Coelho: Lisboa cidade portuguesa
Rúben de Carvalho: Força Alternativa
Sá Fernandes: Lisboa é gente (O Zé faz falta)
Telmo Correia: Competência: a Equipa útil em Lisboa

Como as ideias são tantas para a vida da cidade, achei-me no direito de dar também o meu contributozinho.
Vamos unir o partido, a sério, para salvar os cidadãos desta capital que queremos verde, acreditando que é, de facto, a maior e melhor cidade portuguesa, com uma força alternativa composta por gente onde faz falta uma política útil.

Procura-se

Aqueles dias quentinhos (mas não excessivamente), com temperaturas a oscilar entre os 25º e os 30º, sem vento agreste, mais conhecidos por dias de Verão. Dão-se alvíssaras.

quinta-feira, junho 21, 2007

Quando o Sol beija a Terra

Quase que nem ia dando por isso, mas o Solestício de Verão começou hoje. Quando o Sol se detém mais tempo na Terra. É preciso aproveitar.

As máscaras e os olharapos

O Festival dos Oceanos regressa este ano ao Parque das Nações. De 18 de Julho a 12 de Agosto. E eu que gosto de teatro e máscaras fico contente com o regresso dos olharapos, esses seres fantásticos das profundezas marinhas do nosso imaginário, que conhecemos nos dias da Expo.

Sempre gostei de teatro e de contextualizar as personagens em cima do palco. Da plateia, analiso a sua postura, percebo-lhes os gostos, investigo a atitude. Para as perceber e enquadrar na peça. Está na minha natureza.

Lisboa, Porto e Setúbal são as piores cidades

Lisboa, Porto e Setúbal foram consideradas as piores cidades portuguesas para se viver e simultaneamente as mais inseguras, de acordo com um inquérito promovido pela DECO, junto de duas mil pessoas, das 18 cidades capitais de distrito do território continental e publicado hoje pelo DN.
Viseu, Viana do Castelo, Braga, Aveiro e Castelo Branco são, ao invés, as cidades onde mais apetece viver. O emprego, a segurança, o acesso a cuidados de saúde e a habitação foram as variáveis que determinaram a classificação final.
Guarda, Lisboa e Porto obtiveram os piores resultados quanto à mobilidade, sobretudo devido à dificuldade de estacionamento automóvel.
As redes de transportes de Castelo Branco e Setúbal tiveram os piores resultados, mas pelo preço e pela falta de conforto.
Segundo os residentes, a qualidade habitacional é melhor em Aveiro, Braga, Castelo Branco, Faro, Leiria e Santarém. Já as casas de Lisboa merecem referência pela negativa, principalmente pelos problemas de humidade.
A má resposta dos serviços municipais face às necessidades dos cidadãos é apontada com maior incidência em Lisboa, Leiria e Setúbal.

Refira-se ainda que no panorama internacional, (o inquérito foi feito em 76 cidades - incluindo as 18 portuguesas) Viseu foi a cidade nacional que obteve melhor classificação (17º lugar) e Setúbal a pior (74º).Na Europa, pior do que Setúbal só as italianas Nápoles e Palermo.
No âmbito europeu, Bragança destacou-se como a cidade com melhor qualidade ambiental e menos ruído e a Guarda como a cidade com ar mais puro.
Pela parte que me toca, que anseio por viver uma vida simples numa cidade média, eu viveria bem em Braga, Viana do Castelo, Covilhã, Guarda, Portalegre ou Beja.

quarta-feira, junho 20, 2007

A Caldeira Velha

No meio de uma floresta luxuriante, nas faldas da serra da Lagoa do Fogo, fica a caldeira velha, onde a água ferrosa sai a uma temperatura suficiente para ninguém querer pôr o nariz de fora. Como sabe bem ir lá ao fim da tarde, na descida, o restaurante Lagoa do Fogo é paragem obrigatória (não é, Ana?)
Para o Pisca não se ficar a rir

O incompreensível mundo dos outros

É cíclico. Tem dias em que não percebo o meu mundo, outras em que não percebo o mundo dos outros. São raros os dias em que percebo um e outro. Hoje, estou num daqueles dias em que não percebo o mundo dos outros. Mas sinto-o, com uma intensidade que não entendo. Nem compreendo a intensidade do que sinto, nem as razões da proximidade e da distância. E chegam-me, de todos os lados, ecos do munco dos outros que me inquietam e desassossegam. E não compreendo, mesmo nada.
É em dias assim que só me apetece fazer festas ao meu cão. O meu Tejo, de mim, só espera o meu regresso e a minha presença. Nada me exige, nada me pede e não me morde. E desculpa-me quando sou estupida com ele e o enxoto. Ele sabe, e eu sei, que o nosso amor é incondicional. e que preciso dele. Percebe mais ele, do que eu.

As minhas Flores sentidas


O concelho de Santa Cruz, um dos dois da ilha das Flores (com as Lages), não quer perder mais população. No meio do Atlântico, no gigante mar dos Açores, as Flores são o derradeiro pedaço de terra europeu a caminho da América. O mais ocidental. Pior, em matéria de isolamento, só mesmo a pequenota ilha do Corvo, ali ao lado mas menos setentrional. Agora, na tentativa, não de atrair, mas de manter mais gente, o governo regional e o município decidiram lançar um programa de habitação de custos controlados. E eu leio a pequena breve de hoje, perdida nas páginas do DN, e fico a pensar nas minhas memórias das Flores, um dos locais mais fascinantes por onde passei onde nas noites escuras de Verão se sente mais o peso do céu.

É ali que vive o meu amigo Saúl, o padeiro das Flores, que, quis o acaso (será?), encontrei quando me arrastava pela Praça das Lajes, tentando digerir a sopa do Espírito Santo, que nunca tinha provado. Separados por quatro anos, eu e ele fazemos anos no mesmo dia. E soubemo-lo ali no meio do jardim das Lajes, debaixo do calor sufocante de Agosto. Um calor tão húmido como nunca vi igual. Ficámos amigos. E tenho a sorte de ser a mim que o Saul recorre quando o posso ajudar a entrecurtar a distância para a sua ilha. Telefonou-me há dias pedindo-me para orientar em Lisboa um familiar a quem foi diagnosticada uma doença grave. E eu fiquei grata por o poder ajudar. Também eu, preocupada, lhe telefono para o avisar do mau tempo. Fi-lo aquando da última ameaça de furacão e o Saúl riu-se. "É um ventinho. A gente já está habituada".

Lembrei-me ainda de termos trepado as falésias de Ponta Delgada (não confundir com a capital de S. Miguel), percurso de uma beleza infinita que termina naquele que deve ser o farol habitado mais isolado do Mundo.

Mesmo para quem faz das palavras a sua ferramenta de trabalho, não é fácil descrever as emoções, que sinto e senti, quando estive na ilha das Flores. Poderia falar de um dos mestres do porto que nos deu boleia de zebro para o Corvo, partilhando connosco um dos espectáculos mais intensos de proximidade com centenas de golfinhos que nos fizeram guarda de honra. Poderia falar do misto de claustrofobia e de fascínio, quando o mestre Zé deu meia volta ao zebro e entrou pelas grutas marítimas da ilha, mostrando-nos, ali, como a terra estava esventrada pela erosão do mar. Podia ainda falar da sensação de pequenez que então senti, muito diferente da decorrente do meu metro e meio de gente.

As minhas memórias das Flores passam pelos corredores de hortênsias, pela intensidade dos cheiros, do enxofre, do peixe fresco, das lapas. E passam ainda pelas palavras sentidas de Paulo Valadão, o único deputado regional comunista eleito pelas Flores, no rescaldo do acidente aéreo do ATP da Sata, na ilha de S. Jorge, em 25 de Novembro de 1999: "É uma tragédia imensa para uma ilha tão pequena". Emocionado, Valadão traduzia o sentir de uma população de dois mil residentes, perante a morte de 50 dos seus. E percebi tão bem o que ele queria dizer.

terça-feira, junho 19, 2007

Enigmas da minha natureza

Porque me aparece sempre um carro nas rotundas desertas quando eu vou a entrar?

segunda-feira, junho 18, 2007

E há consciências despertas

A foto pertence a uma campanha publicitária da WWF Brasil. E como toda a boa publicidade, diz tudo. Foi retirada de O Jumento e as restantes podem ser visualizadas aqui.

Há sítios assim...


Eu sei onde fica, mas, perdoem-me, não posso dizer. Claro que se alguém adivinhar...
Apenas num acto de generosidade com os meus companheiros de leituras, decidi partilhar este local. Para que nestes tempo de secura, possamos refrescar-nos em conjunto. Bons banhos.

Há sítios assim...

Eu sei onde fica, mas, perdoem-me, não revelo as fontes.

domingo, junho 17, 2007

Alguma coisa está a mudar em Lisboa

Um grupo de lisboetas, desligados das vontades dos partidos políticos ou das candidaturas independentes, decidiu pôr-se à cata de ideias e propostas para fazer de Lisboa uma cidade mais participativa, onde os cidadãos possam sentir que têm uma palavra a dizer nos processos de decisão do governo da cidade.
Dirão alguns que agora é moda ser-se independente. Mas não me parece que estas pessoas sejam independentes. Pelo contrário, parecem-me pessoas comprometidas. Mas esse compromisso é com a sua cidade e não com os partidos políticos, dos quais até podem ser simpatizantes ou até militantes. É bom que, a despeito de um eventual desencanto com a política ou com os políticos, ainda existam cidadãos com força, capacidade anímica e esperança de querer melhorar a cidade onde vivem, estudam ou trabalham.
Não deixa de ser curioso que duas candidaturas de independentes - Carmona Rodrigues e Helena Roseta - tenham surgido e baralhado as contas partidárias. Só por si, este facto é um sinal de que alguma coisa está já a mudar na governação de Lisboa.
Os próximos governantes da cidade, pertençam ou não a partidos políticos, já perceberam que terão de contar com estas expressões de cidadania activa a reclamar direitos, a contestar opções, a apontar outras soluções. Lisboa precisa destes movimentos como do pãozinho para a boca. E os lisboetas agradecem. Venham mais cinco.

Há dias piores...

Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim
Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo
in Carlos Tê/Rui Veloso

Estou lá...

Deu-me agora uma vontade de pousar o olhar no horizonte de Monsaraz. E perder-me na imensidão da planície, com vontade de mergulhar os pés em Alqueva.
Ao fim da tarde, acompanhar a descida do Sol da varanda do Alcaide, onde mastigo umas migas de espargos e me deixo levar pelo doce sabor do vinho da casa, deixando-me adormecer em boa companhia no quarto quatro da Casa d' Nuno, sonhando já com o farto pequeno almoço de pão quente do Telheiro.
Como não há coincidências, estas memórias devem compensar alguma coisa. Que nervos!

sábado, junho 16, 2007

Bem prega frei Tomás...nas ruas de Lisboa

Ana Sara Brito, a terceira da lista de António Costa para a Câmara de Lisboa, até gostava de ver entre o(a)s noivo(a)s de Santo António alguns casais homossexuais. Foi ontem no debate promovido pela ILGA. Eu não ouvi, mas li aqui.
Ora, se o Partido Socialista defende o casamento civil dos homossexuais só não percebo porque motivo, sendo governo, ainda não apresentou nenhuma proposta legislativa nessse sentido. Como também não compreendo porque razão o programa eleitoral de António Costa para Lisboa não faça uma única referência ao assunto.

sexta-feira, junho 15, 2007

Coisas que detesto (II)

Sentir-me amarrada e que brinquem com a minha liberdade. Não gosto mesmo, mesmo, nada.

Porquê?

Porque motivo temos tanta dificuldade em lidar uns com os outros; porque complicamos coisas simples, porque nos tornamos reféns das nossas vontades não cumpridas; porque nos desiludimos; porque nos magoamos sistematicamente e aos outros, mesmo quando não percebemos; porque nos sentimos de pés e mãos atadas, por tantas vezes; porque falamos demais e outras, tantas outras, de menos; porque sentimos tanto e compreendemos tão pouco; porque nos custa tanto entender-nos a nós e perceber os outros, porque nos custa não saber ou nos pesa a sensação de saber de mais.
Devo ser um case study, ao passar por um retardamento da idade dos porquês.

A homossexualidade e os candidatos

A ILGA, associação que defende os direitos dos homossexuais, convidou os candidatos à presidência da Câmara de Lisboa a revelarem a sua postura política face ao tema da homossexualidade. Apenas Helena Roseta aceitou estar presente no debate de hoje à noite. António Costa, Fernando Negrão, Carmona Rodrigues, Rúben de Carvalho, José Sá Fernandes e Telmo Correia delegaram em outros membros da lista (do 3º aos 24ª) a sua participação.
Será um sinal de homofobia ou continuamos com a tolerância envergonhada do políticamente (in)correcto? Ou então os candidatos descobriram que já não há homossexuais em Lisboa, porque foram todos para Madrid...
Os responsáveis da cidade andaram tantos anos a assobiar para o lado, em relação a tantos assuntos, que quando Lisboa despertou deu por si com menos 250 mil pessoas, com uma população envelhecida, um património em ruína, as actividades económicas asfixiadas por falta de vitalidade e sem massa crítica capaz de novas soluções.

quinta-feira, junho 14, 2007

Coisas de que gosto (II)

Dos regressos. De matar saudades. Dos campos multi-coloridos de Maio e e Junho. Das conversas de fim do dia. Dos passeios à beira Tejo. Ds chuvas repentinas de Verão.

A verdade a que tínhamos direito...há 17 anos

Fez ontem - dia de Santo António - 17 anos que saiu para a rua a última edição do jornal o diário. Foi uma grande escola de jornais e de jornalistas. Foi ali que fiz os primeiros três anos de profissão e onde aprendi, com grandes camaradas, a importância de observar e de escrever com rigor o que via e o que me diziam. De separar a notícia - os factos - de opinião. E de cada vez que me lembra esta necessária separação recordo as sábias palavras do Joaquim Benite, com quem me peguei várias vezes: "O leitor está-se nas tintas para a tua opinião. O leitor quer saber o que se passou". Apenas isso. E 20 anos depois continuo, todos os dias, a tentar ser fiel a essa separação, apesar de viver numa sociedade onde, cada vez mais, se misturam opiniões com factos, numa mastigação colectiva que nos permite ter e fazer opinião sobre tudo.
Mas foi também em o diário que deixei cair por terra as minhas primeiras ingenuidades políticas, quando percebi que eram muitas as verdades a que tínhamos direito, consoante o lado economicista (ou direi político) de que estávamos. Quando percebi que o diário de esquerda onde tantas linhas se escreveram sobre a defesa dos direitos dos trabalhadores foi afinal o primeiro orgão de comunicação social a encetar um processo de despedimento colectivo. Por coincidência, em 1992, quando o Mundo estava a mudar.

quarta-feira, junho 13, 2007

Mais e mais Alfama

Alfama voltou a ganhar (deve ser a milésima vez) o concurso das marchas populares de Lisboa. E Marvila (também pela milésima vez) ficou em segundo.
Há uma sensação de dejá vú que me desassossega nesta classificação.
Talvez os senhores candidatos, que ontem andaram a espalhar beijinhos pela avenida, quando forem eleitos vereadores tenham coragem para olhar melhor para a forma como decorre este concurso e todo o processo de classificação. É preciso acabar com as subjectivades deste sistemático pendor por Alfama, bairro lindo e nobre de Lisboa, que encerra boa parte do sentir lisboeta. Mas nas marchas populares o que está em apreciação é mesmo a qualidade da marcha. Apenas.
Largas centenas de pessoas dão cor e vida às marchas populares da cidade. São elas que, todos os anos, durante três a quatro meses no mínimo, dão o seu tempo para construir um dos momentos mais emblemáticos da vida de da cidade. Perder e ganhar faz parte da festa. Mas é preciso que todos compreendam que os outros foram melhores. Isso dignifica a derrota e engrandece a vitória. Mas não é isso que tem acontecido. A subjectividade dos critérios classificação não pode continuar a pesar como uma sombra na transparência do concurso das marchas de Lisboa.

2007
Alfama foi a melhor marcha e a melhor coreografia
Marvila venceu a cenografia, o figurino (com Alfama) e a musicalidade (com o Bairro Alto e Campolide).
A melhor letra e canção original pertence à Bica.
A marcha dos Olivais ficou em 10º lugar, a da Graça em 12º (lamento, Pisca) e a do Beato em 16º (a pior classificação de sempre desta jovem marcha).

terça-feira, junho 12, 2007

A descer a Avenida sempre em Liberdade

Hoje é noite de Santo António. De desfile dos bairros pela Avenida. Mesmo quando estive ligada ao Beato, o meu coração já pertencia a outra. Em noite de marchas populares de Lisboa, perdoem-me o bairrismo, mas isto só se solta uma vez por ano.

Força Marvila!

Este ano sob o tema das tabernas da minha Lisboa Oriental, onde também aprendi a jogar às damas, ao dominó e à sueca.
Antes de saber quem será a marcha vencedora, espero sinceramente que este ano não voltem a pesar suspeições sobre a decisão do júri de um concurso que diz muito a Lisboa e a largas centenas de lisboetas que, anualmente, dão cor e vida a uma das manifestações mais pitorescas e tipícas da cidade.


A terapia do trabalho

Além da escrita, também o trabalho é uma boa terapia. Para tudo. Para nos alhearmos ou para nos envolvermos. Para mudar ou para permanecer. O trabalho obriga-nos a uma concentração suplementar. E com ele saltamos de nós para os outros. Sem qualquer pretensão de distinguir o sentir e o compreender. Dirão os psicólogos que será uma fuga. Pois que seja. Antes isso que anti-depressivos.

A presença dos candidatos nas TV's

Os dados são da Marktest e revelam os tempos de cobertura jornalística das acções de pré-campanha dos principais candidatos às eleições intercalares em Lisboa.
Factos são factos.

A nova escravatura na Holanda

A minha camarada de redacção Céu Neves assinou no Diário de Notícias uma das reportagens mais interessantes que li na imprensa portuguesa nos últimos anos. A Céu fez, de motu próprio, o percurso dos trabalhadores portugueses que buscam o el dorado na Holanda e a realidade que encontrou devia obrigar-nos a reflectir com seriedade sobre este tipo de escravatura.
Pessoas aliciadas em outros países para irem trabalhar em fábricas ou hóteis, sem contratos de trabalho, ficando alojadas em condições deploráveis e reféns de esquemas ardilosos que buscam o lucro a qualquer preço. A jornalista não se limitou a acompanhar os cidadãos portugueses que pensam encontrar na Holanda o que Portugal também não lhes dá - o trabalho com direitos. Durante duas semanas, a Céu fez o calvário dos trabalhadores portugueses nas fábricas de tomate. Viu o desespero, a desesperança, a crueldade. E eu, que li a reportagem e que segui o debate televisivo ontem, fico a pensar se é esta a a Europa dos direitos e da cidadania idealizada por Jean Monnet ou até por Jacques Delors.
Penso nos portugueses lá e penso nos ucranianos, nos brasileiros ou nos romenos cá. Nos angolanos ou nos guineenses. Penso nos fluxos migratórios dos anos 60, de Portugal para França e para a Alemanha. Será diferente? Não andaremos todos a construir as "cidades para os outros". Faremos diferente em Portugal quando nos aproveitamos da mão-de-obra barata, explorando quem nada tem?
Tenho esperança que um dia a humanidade perceba a importância do trabalho na construção de sociedades mais justas, fraternas e solidárias. Onde não caiba a exploração e seja reconhecido o valor do trabalho.

"Estou farto de carregar cadáveres às costas"

O homem aproveitou as férias para ir à Ucrânia buscar o filho. Já estava em Portugal há cinco anos com a mulher e, finalmente, optara por viver aqui, onde começavam a fortificar as raízes que, na sua Pátria fria, não tinham vingado.
Ontem, de regreso ao trabalho pelas oito da manhã, voltou a pegar no camião que conhecia bem. De Alcobaça para Alverca, optou por ir pela CREL e, sem que se perceba bem o que teria acontecido, o camião embalou-se na perigosa descida da A9 e acabou por capotar junto às cabines da portagem. E o homem ficou ali.
Foi a notícia do dia de ontem e calhou-me a mim, em regresso de férias, ir a Alverca, contar o que se passou. Sempre testemunha à posteriori relatando os factos que polícias, bombeiros e outras autoridades descrevem. Mesmo habituada, por força das circunstâncias profissionais, a lidar com tragédias destas, fiquei impressionada com o que vi. Com o que soube. E sempre que tenho de enfrentar situações destas lembro-me do cigano, um sábio inspector de polícia, que cansado de construir muros com as tragédias dos outros, no rescaldo de mais um homícidio desabafou com duas jornalistas que o convidaram para beber um café: "Estou farto de carregar cadáveres às costas".
Como nós percebemos o cigano, não é Marmar?

segunda-feira, junho 11, 2007

Recomeço

Tenho saudades. E irrita-me sentir-me assim, logo no primeiro dia do regresso ao trabalho.

domingo, junho 10, 2007

Chuvas de Junho

Caí uma chuva repentina e surpreendente em Lisboa, que lava as flores de Jacarandá dos passeios do meu bairro, avivando as cores da paisagem e acentuando o azul forte do meu rio. Tempo esquisito este.

sexta-feira, junho 08, 2007

(Al)pista no caminho do golfe


Da Portela, recordo as despedidas de familiares do terraço do aeroporto. Ficávamos ali, ao longe, a vê-los embarcar, numa partilha de lágrimas com os companheiros do lado. Em outras vezes era um momento de festa, transvestido de passeio domingueiro para as crianças pobres da cidade que nunca tinham visto os aviões levantar vôo.
Habituei-me à presença do aeroporto na minha Lisboa Oriental. Aquela de que os governantes da cidade se esqueceram durante meio século. No meio do lixo, da degradação urbana, dos contentores a separar-nos do rio, o aeroporto era a única estrutura de referência para lá de Santa Apolónia. Mais do que a porta de entrada na nossa cidade, era a porta de entrada no nosso País dos ricaços de uma Europa que julgávamos distante. E mesmo que fosse a correr, eles tinham de chegar à rotunda do Relógio para encontrar o centro da cidade.
O nosso olhar para Santa Apolónia, o velhinho convento de freiras adaptado às exigências industriais da época do transporte, era diferente. Muito mais próximo, porque era à velha estação ferroviária de Lisboa que íamos com frequência buscar os tios de França ou da Alemanha, do Alentejo ou das Beiras.
A cidade, de repente, descobriu o seu lado oriental, cresceu e embelezou-se, e o aeroporto ficou a mais. E perigoso. No limite dos concelhos de Lisboa e de Loures, inserido na fatia territorial mais povoada dos dois concelhos, o aeroporto da Portela é hoje uma zona de risco. Mas já o era há 20 anos.
Tanto do lado de Loures como de Lisboa cresceram bairros clandestinos e de habitação degradada durante a segunda metade do século passado. E foi à volta do aeroporto - onde havia espaço livre ou vazios urbanos' - que se foram concentrado os milhares de refugiados laborais que procuravam na cidade o emprego que os campos não davam.
Nunca ninguém se preocupou com o perigo quando, há 20 anos, os Boeing 747 sobrevoavam em vôo rasante o bairro de pré-fabricados do Relógio, antes de tocarem o chão de Lisboa. O bairro do Cambodja, de que poucos recordarão o nome de má memória, deu lugar hoje a um orgulhoso campo de golfe, o único da cidade, de onde se tem uma das melhores perspectivas do aeroporto. E eu até penso que, se calhar, o barulho dos aviões começou a perturbar as concentradas tacadas.
É inegável a importância estratégica de um aeroporto para uma cidade. Ainda por cima, uma cidade periférica cujo cartão de visita reside no turismo. Lisboa precisa de manter um aeroporto de pequena dimensão. Mas a despeito do romantismo das recordações, eu não quero um aeroporto com a dimensão do aeroporto internacional da Portela no centro de Lisboa. Não quero imaginar a brutalidade de um eventual acidente numa zona residencial e penso que toda a área envolvente é penalizada pelo ruído e pela intensidade de tráfego desnecessariamente.
Não sei se o novo aeroporto internacional de Lisboa deva ir para a Ota ou para Rio Frio (até prova em contrário defendo a Ota), mas defendo e desejo que seja qual for a opção se decida rapidamente.

quinta-feira, junho 07, 2007

Coisas de que gosto

Ter esperança. O copo meio cheio. Pessoas inteligentes. Escrever. Ver e sentir. A primeira chuva depois do Verão. O entardecer em Monsaraz e em Vila Nova de Cerveira. O imenso mar dos Açores. O lhéu de Vila Franca do Campo visto do Monte Escuro. As caminhadas por onde os pés me levem. Tomar banho às oito da noite na Caldeira Velha. O Pico visto de S. Jorge. A neblina das Flores. Comer e beber com amigos. Vinho tinto. Ouvir os cucos a desoras em Montesinho. A comida do Manel. Os meus bichos. As minhas pessoas. A verdade. A lealdade. A vida. (em actualização permanente)

Coisas que detesto

A mentira, a hipocrisia e as coisas inúteis que me fazem perder tempo.

quarta-feira, junho 06, 2007

Todos são iguais, mas uns são mais iguais que outros

O Estado não vai financiar a campanha para as eleições intercalares na câmara de Lisboa, porque a Lei não prevê a existência desse tipo de subvenção específica. Curiosamente, a lei prevê, necessariamente, a possibilidade de realização de eleições intercalares. Parece que alguém se esqueceu de alguma coisa.
A decisão, comunicada ao presidente do Parlamento, consta de um parecer jurídico da Procuradoria-Geral da República.
O facto de não haver uma subvenção estatal para financiar a campanha eleitoral obrigará, assim, os partidos políticos e as listas de independentes a suportarem todos os custos de campanha. E obviamente todos percebemos quem sairá mais prejudicado com esta decisão.
Na linha de partida todos os candidatos são iguais, mas com a ajuda legítima da Lei parece haver uns mais iguais que outros. Há algo de incongruente neste caso.

terça-feira, junho 05, 2007

Vontades prisioneiras do tempo

Logo que nasci,
fecharam-me em mim.
Ah, mas eu fugi!

in Fernando Pessoa

Às duas por três, vivemos,
Às duas por três, morremos
E a vida? Não a vivemos.

in Alexandre O'Neill

As minhas primeiras cerejas do Verão


Hoje, finalmente, comi as minhas primeias cerejas deste ano e, de tão saborosas e maduras, souberam-me ao Céu. Pedi os desejos da praxe e era capaz de ficar a tarde toda naquilo. Foi numa tasca do centro da minha cidade. São servidos?

O primeiro dia


Em Espanha não se pode fumar em estabelecimentos comerciais e, por isso, não encontrei em Sevilha um único dístico a interditar o fumo. Pelo contrário, encontrei em várias lojas o cartaz que a foto documenta, autorizando que os clientes fumassem nas suas instalações.
Eu, fumadora, não podia estar mais de acordo. A regra deve ser mesmo a discriminação negativa, impedindo os fumadores de atacarem a liberdade dos outros. A excepção deve ser a discriminação positiva, permitindo o fumo. Contra mim falo que, por mero comodismo, acendo o cigarro a seguir às refeições, mesmo sabendo que no restaurante haverá pessoas a comer. E faço-o porque me é permitido fazê-lo. Por isso, não podia estar mais de acordo com os espanhóis. Além disso, como qualquer outro vício que nos agarra e nos tolhe a vontade por dentro, o primeiro dia para o esquecer é sempre o mais difícil.

segunda-feira, junho 04, 2007

Duas dúzias de paciência, faz favor

Vou deixar de ler notícias. Ah, é verdade, não posso. São o meu ganha pão. Mas em dias como hoje, sinceramente, esperava notícias diferentes. Por exemplo, daquela que me diz que o governo prepara um projecto de lei para contrariar administrativamente a vontade eleitoral dos cidadãos ou de não recordar que um chefe (que a Terra lhe dê paz) me disse, há 18 anos, que mil tombados em Tiananmen significavam apenas dois ou três em Lisboa.
Há dias em que esperava notícias melhores.

domingo, junho 03, 2007

Esta Lisboa que amo, da outra margem

No castelo, ponho um cotovelo
Em Alfama, descanso o olhar
E assim se desfaz o novelo
De azul e mar
À ribeira encosto a cabeça
A almofada, na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo
(...)
Um abraço para o olhar do Pisca sobre Lisboa


Opções

Atravessei o deserto e, até prova contrário, não virei camela. E talvez um dia, quem sabe, escolha definitivamente ir viver para o deserto. Há sempre uma esperança.

sábado, junho 02, 2007

Adivinha


















Pago um café a quem adivinhar, primeiro, que cidade é esta. Deixo algumas dicas: Não conhecia (há coisas assim). É quente. Diria eu que é caliente demais às dez da manhã, de uma manhã primaveril. Gosta de Jacarandás, quase tanto como Lisboa. Quase todo o centro histórico monumental está reservado ao peão. Por todo o lado circulam bicicletas, charretes e outros veículos não motorizados. Por qualquer lado por onde se ande, chega-nos o som de música tocada por artistas de rua. Cruzamo-nos com artistas circenses em diversas representações. E de repente alguém nos oferece uma geribéria laranja, durante a campanha publicitária de uma loja. (As fotos das árvores, no post em baixo, também são desta cidade)

As árvores e os critérios das câmaras





Há cidades que preservam as suas árvores históricas. E não se pense que, nesta cidade, apenas estas duas são árvores centenárias. Vi muitas hoje. E não deixei de reparar que apesar de terem um ar mais doente do que os plátanos e jacaranás que a câmara de Lisboa cortou no Campo Pequeno, a estas árvores idosas - como às outras que iluminam esta cidade - o município local protege-as.

Novidades do deserto

Hoje fui ao encontro da madrugada e rumei para Sul. O deserto é perigoso com o Sol. Enquanto o automóvel devorava paisagem, procurava alguma vivalma, mas nada. Absolutamente ninguém. E estava eu a pensar que, afinal, o ministro Mário Lino estava certo quando olhei para o relógio: eram quatro da manhã.

sexta-feira, junho 01, 2007

O primeiro direito...

O dia 1 de Junho está quase a acabar. Convencinou-se chamar-lhe Dia Mundial da Criança. Durante todo o dia procurei notícias, vi sítios na Internet, li opiniões. Fiquei a saber de deslocações de ministros a escolas, de figuras públicas em iniciativas com crianças. Foi bonito. Em lado nenhum, porém, li hoje que o primeiro direito da criança é ser desejada. É bom lembrar, para não esquecer.

Os candidatos, as propostas e os jornalistas

António Carmona Rodrigues, candidato a presidente da Câmara de Lisboa, optou por andar na rua em acções de pré-campanha eleitoral, sem qualquer jornalista a acompanhá-lo. Diz o candidato que dessa forma, (e cito o Público online) os contactos com a população são mais genuínos. É estranha esta concepção que o presidente da câmara revela ter da Comunicação Social.
António Costa não quer mais portagens à entrada de Lisboa e para solucionar o excesso de automóveis no coração da cidade, o candidato socialista diz que a solução passa por desviar da Baixa pombalina o tráfego que segue para Belém e para a Expo (Parque das Nações, dr. António Costa). Continuei a ler a notícia, mas acredito que não foi por culpa do jornalista que não encontrei a explicação de António Costa para desviar o tráfego da baixa. Será uma ponte, um túnel. Como o fará?

Os sons que queremos ouvir

Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama

in Jose Gomes Ferreira, poeta maior esquecido

Doce sabor

Para o Jardinando, acabadinha de chegar por email (bem sei que não são cerejas)

As contas de 'sumir' das finanças públicas

O ministro das Finanças, finalmente, veio esclarecer os portugueses sobre os 700 milhões irregulares nas contas do Estado e disse qualquer coisa como isto: É um número que impressiona, mas representa apenas 1% da despesa total do Estado. Era mesmo o que eu precisava de ouvir.

Sempre a pintar a manta

Deu-me assim para me refrescar nas linhas geométricas e rigorosas da pintura do Manuel Neto, meu camarada de profissão, agora dedicado a 100% à pintura. Meu gémeo na vida, no signo e nas escolhas. Ainda que distantes, sempre lado a lado.
(à esquerda, Cartas; à direita, Regata, em baixo Galo)



"Muita força, para pouco dinheiro"

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
in Sérgio Godinho

Dinheiros públicos em bolso furado

O Tribunal de Contas detectou despesa pública irregular superior a 700 milhões de euros nas 87 nas auditorias feitas em 2006 a 190 organismos do Estado. É incrível, não apenas a irregularidade (como é possível?) como o facto de ainda não ter ouvido nenhum responsável governamental ter dado explicações sobre isto.
Como reage o Estado quando as contas de uma empresa não batem certo? O que acontece se uma empresa não apresentar facturação que justifque a saída de dinheiros? No mínimo (já para não falar dos eventuais ilícitos criminais) fervem coimas.
E no Estado? Assobiamos para o lado e fazemos de conta que esses 700 milhões de euros foram mesmo bem gastos? Porque motivo não se revelam os organismos em causa, para que não fique a pairar espectro da suspeição sobre todos: admnistração central e administração local.
E os responsáveis destes organismos ficam impunes?
Continuam furados os bolsos por onde se escoam os dinheiros públicos. Mais do que os gastos ou poupanças decorrentes das opções políticas, com as quais podemos concordar ou discordar, o que não é tolerável é continuarmos sem saber como são gastos os dinheiros públicos e ficarmos impassíveis como se nada fosse.
E a estes 700 milhões que pelos vistos ninguém sabe para onde foram, junta-se outra notícia do dia: temos de trabalhar durante mais anos ou aumentar o valor das nossas contribuições se quisermos manter a sustentibilidade da segurança social, um dos pilares dos sistemas democráticos e dos nossos valores civilizacionais mais solidários.
Se alguém tivesse de responder por estes 700 milhões, talvez os cofres da Segurança Social tivessem uma ajudinha.

Que há-de ser de nós?

Hoje acordei com esta música na cabeça. Um dos mais belos poemas em língua portuguesa. Podia ter-me dado para muito pior, que o diga o pessoal cá de casa.

Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento

Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?

Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?

Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã

Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós

Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»

Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós

Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi quanto é, quanto dura?

in Sérgio Godinho

quinta-feira, maio 31, 2007

As escolhas de José Sócrates

Parece-me apropriado que o primeiro-ministro tenha escolhido para o debate parlamentar de hoje "as políticas de acesso às tecnologias de informação e competitividade". Depois de uma greve geral, o que importa é mesmo olhar em frente e siga para bingo. Corre, José, corre.

quarta-feira, maio 30, 2007

Um dia de greve

Passo os olhos pelo mundo português em dia de greve geral e não deixo de me surpreender, por não encontrar surpresa nenhuma. Os sindicatos, suportados pelo sector público e dos transportes, falam em êxito. O governo, pela voz do ministro das Finanças, garante que o País não parou. E aqueles que - por força das suas convicções ou por se sentirem reféns do trabalho precário - não aderiram à greve enchem a boca com impropérios contra os comunistas que só pensam em fazer gazeta ao trabalho.
Eu não fiz greve, porque estou de férias. Se estivesse a trabalhar teria cumprido o meu dia de greve geral. Foi o que fiz da última vez, numa empresa onde só duas pessoas (comigo) fizeram greve.
E não fiz greve por não querer trabalhar, mas porque percebia as motivações da greve. Como esta. Percebo que atravessamos uma crise imensa, por culpa dos muitos governantes que nos governaram nos últimos anos (e não falo apenas deste governo). Percebo que a situação social que vivemos está a colocar famílias à beira do descalabro económico. Percebo que o Estado se quer furtar a muitas das suas obrigações sociais e percebo que caminhamos desiludidos. Por isso, somos presas fáceis do desencanto.
É ridículo ouvir o ministro Teixeira dos Santos dizer, à laia de legenda, que o País não parou. Era suposto que parasse? Uma greve geral é um sinal de alerta para qualquer governo democrático, por muito inconscientes que sejam os sindicatos. É um sintoma de que alguma coisa não está bem e deveria obrigar qualquer político consciente, senão a arrepiar caminho, pelo menos, a avaliar melhor algumas opções desastradas.
Hoje tentei ir arranjar o carro e a oficina estava fechada. Quis andar de Metro e nem entrei. Esperei quase uma hora por um autocarro. Mas tomei café como de costume, fiz compras.
Os sindicatos não estão isentos de culpa. O caminho não é este, pois não se pode continuar a continuar a impor as mesmas formas de luta de há cem anos sob risco de desmobilização colectiva, porque já ninguém acredita nos resultados.
Hoje, a realidade das sociedades é outra, embora lutemos pelas mesmas esperanças. O esforço de renovação das lutas por uma sociedade melhor passará, indiscutivelmente, pelo movimento sindical, e pela sua excelente e solidária organização, em todos os aspectos, mas os sindicatos precisam de uma renovação cívica. Porque a civilização do operariado também ela já mudou.

Túneis de lilás

A explosão dos Jacarandás já começou. Em algumas ruas de Lisboa, formam-se tuneis de lilás, em outras os passeantes são salpicados por lágrimas de Jacarandá. Mas a cidade fica, de facto, muito bonita. Com pesar para aqueles que se incomodam com a seiva das árvores a cair sobre os automóveis. Para esses fica um conselho alfacinha: vão dar banho ao carro mais vezes.
E uma sugestão de passeio de fim de tarde -Uma saltadinha às esplanadas de Belém, para espreitar a maior colónia de Jacarandás de Lisboa, com passagem obrigatória pela Rua D. Carlos I.
(Peço desculpa pela má qualidade das fotos, a culpa é do telemóvel)


O meu Tejo mais próximo


Depois de ter publicado as fotos da Lua e do Gaspar, o meu Tejo andou deprimido. Depois veio a indiferença. E hoje, bem hoje, disse-me assim de caras que me punha as malas à porta se eu não publicasse a foto dele. E pronto, tive de corrigir a injustiça. Apreciem a beleza do meu bicho.

segunda-feira, maio 28, 2007

Declaração de amor

Tenho pena de não votar em Lisboa. Da minha cidade separam-me 500 metros de chão. Meio quilómetro que, administrativamente, me expulsou da minha terra. Vivo numa ficção jurídico-administrativa chamada Parque das Nações. A minha câmara, aquela que me dá água e me trata do lixo, que organizou o meu bairro e pavimenta as minhas ruas, que cuida dos meus espaços verdes, é uma empresa pública: a Parque Expo. Mas eu não tenho uma palavra a dizer sobre os seus órgãos, eu não escolho os meus representantes nessa empresa.
Para não me cercear de direitos cívicos, o Estado dividiu o meu bairro ao meio e disse que dois terços eram Lisboa e o terço restante já era Loures. E nessa fronteira, feita a giz no traço do planeamento, eu fui saneada da minha cidade. Escolho, por isso, os meus representantes municipais em Loures, concelho onde me sinto estrangeira.
Até abandonar o ninho familiar sempre vivi na zona oriental de Lisboa. Habituei-me a olhar o Tejo por entre as frechas dos contentores. Cresci às portas de um bairro rico e bonito, mas numa zona pobre e degradada, nos anos em que a cidade se tinha esquecido do seu lado oriental. Do Beato, de Marvila, dos Olivais, onde se acumulava o lixo que a cidade não queria ver.
Mas amava-a, sempre a amei, talvez pela beleza suprema daquela visão do Tejo, espraíando-se sobre o Mar da Palha.
Estudei e trabalhei sempre em Lisboa e foi em Lisboa que me fiz gente.
Esta é a minha terra. E eu sinto-me escorraçada por não poder escolher os meus representantes. Porque é em Lisboa que trabalho e que faço vida. É nas ruas de Lisboa que eu circulo, de transporte ou automóvel. Todos os dias. Mas pago IMI e imposto automóvel a Loures. Pago água à Parque Expo (a mais cara do País do lado de Loures).
Podem-me obrigar a pertencer a outros, mas as minhas raízes não pertencem a Loures. O meu coração ama Lisboa.
Percebia melhor não votar em Lisboa se pudesse votar para uma Area Metropolitana, digna desse nome, com órgãos eleitos. Porque sem viver na Cidade (por culpa da tal ficção jurídica) sentia-me compensada por viver na Região. Essa palavra que tanto medos e tanta hipocrisia desperta em tanta gente.