À saída do Metro, lá estava o novo ardina dos tempos modernos de jornal esticado, à espera que o aceitasse. Assim fiz. Mas, não satisfeito, o homem estancou-me o passo com o indicador estendido: 'Ó menina, leve lá o cubo'.
Sem perceber patavina - excepcionalmente ainda não tinha injectado a dose matinal de cafeína - deixei-me 'empurrar' para a direita onde outro ardina escarafunchava qualquer coisa dentro de um saco. Finalmente titrou a mão e esticou-me um maravilhoso caldo Knorr.
Os meus piores receios concretizaram-se: chegámos a era do verdadeiro caldo informativo. Estou a pensar pô-lo a ferver com um litro de água e juntar-lhe umas massinhas de letras.
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sexta-feira, maio 30, 2008
segunda-feira, outubro 01, 2007
Podem explicar-me, por favor?
Há dias um jornal de expansão nacional titulava assim em manchete:
CONDENADOS: 19 ANOS de cadeia por ter morto na Lousã homem que, ao simular relações sexuais com frigorífico, lhe terá ofendido a esposa.
Eu li cinco vezes e continuo sem perceber: o sujeito da frase, a razão da sentença, a mulher de quem. É óbvio que o pudor editorial me faz não citar o autor, nem a publicação. Mas para que ninguém se sinta tentado a rir da desgraça dos outros também já li nos jornais (todos diferentes e ainda existentes), pérolas idênticas que partilho:
CONDENADOS: 19 ANOS de cadeia por ter morto na Lousã homem que, ao simular relações sexuais com frigorífico, lhe terá ofendido a esposa.
Eu li cinco vezes e continuo sem perceber: o sujeito da frase, a razão da sentença, a mulher de quem. É óbvio que o pudor editorial me faz não citar o autor, nem a publicação. Mas para que ninguém se sinta tentado a rir da desgraça dos outros também já li nos jornais (todos diferentes e ainda existentes), pérolas idênticas que partilho:
"(...)o morto foi assinado com 27 facadas, uma das quais terá sido mortal",
"(...)a Armada continua à procura do mancha negra"
e, a melhor das melhores,
"O cádaver do morto foi encontrado a boiar no fundo das águas do rio(...)"
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quinta-feira, junho 14, 2007
A verdade a que tínhamos direito...há 17 anos
Fez ontem - dia de Santo António - 17 anos que saiu para a rua a última edição do jornal o diário. Foi uma grande escola de jornais e de jornalistas. Foi ali que fiz os primeiros três anos de profissão e onde aprendi, com grandes camaradas, a importância de observar e de escrever com rigor o que via e o que me diziam. De separar a notícia - os factos - de opinião. E de cada vez que me lembra esta necessária separação recordo as sábias palavras do Joaquim Benite, com quem me peguei várias vezes: "O leitor está-se nas tintas para a tua opinião. O leitor quer saber o que se passou". Apenas isso. E 20 anos depois continuo, todos os dias, a tentar ser fiel a essa separação, apesar de viver numa sociedade onde, cada vez mais, se misturam opiniões com factos, numa mastigação colectiva que nos permite ter e fazer opinião sobre tudo.
Mas foi também em o diário que deixei cair por terra as minhas primeiras ingenuidades políticas, quando percebi que eram muitas as verdades a que tínhamos direito, consoante o lado economicista (ou direi político) de que estávamos. Quando percebi que o diário de esquerda onde tantas linhas se escreveram sobre a defesa dos direitos dos trabalhadores foi afinal o primeiro orgão de comunicação social a encetar um processo de despedimento colectivo. Por coincidência, em 1992, quando o Mundo estava a mudar.
Mas foi também em o diário que deixei cair por terra as minhas primeiras ingenuidades políticas, quando percebi que eram muitas as verdades a que tínhamos direito, consoante o lado economicista (ou direi político) de que estávamos. Quando percebi que o diário de esquerda onde tantas linhas se escreveram sobre a defesa dos direitos dos trabalhadores foi afinal o primeiro orgão de comunicação social a encetar um processo de despedimento colectivo. Por coincidência, em 1992, quando o Mundo estava a mudar.
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terça-feira, junho 12, 2007
A presença dos candidatos nas TV's
Os dados são da Marktest e revelam os tempos de cobertura jornalística das acções de pré-campanha dos principais candidatos às eleições intercalares em Lisboa.Factos são factos.
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A nova escravatura na Holanda
A minha camarada de redacção Céu Neves assinou no Diário de Notícias uma das reportagens mais interessantes que li na imprensa portuguesa nos últimos anos. A Céu fez, de motu próprio, o percurso dos trabalhadores portugueses que buscam o el dorado na Holanda e a realidade que encontrou devia obrigar-nos a reflectir com seriedade sobre este tipo de escravatura.
Pessoas aliciadas em outros países para irem trabalhar em fábricas ou hóteis, sem contratos de trabalho, ficando alojadas em condições deploráveis e reféns de esquemas ardilosos que buscam o lucro a qualquer preço. A jornalista não se limitou a acompanhar os cidadãos portugueses que pensam encontrar na Holanda o que Portugal também não lhes dá - o trabalho com direitos. Durante duas semanas, a Céu fez o calvário dos trabalhadores portugueses nas fábricas de tomate. Viu o desespero, a desesperança, a crueldade. E eu, que li a reportagem e que segui o debate televisivo ontem, fico a pensar se é esta a a Europa dos direitos e da cidadania idealizada por Jean Monnet ou até por Jacques Delors.
Penso nos portugueses lá e penso nos ucranianos, nos brasileiros ou nos romenos cá. Nos angolanos ou nos guineenses. Penso nos fluxos migratórios dos anos 60, de Portugal para França e para a Alemanha. Será diferente? Não andaremos todos a construir as "cidades para os outros". Faremos diferente em Portugal quando nos aproveitamos da mão-de-obra barata, explorando quem nada tem?
Tenho esperança que um dia a humanidade perceba a importância do trabalho na construção de sociedades mais justas, fraternas e solidárias. Onde não caiba a exploração e seja reconhecido o valor do trabalho.
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"Estou farto de carregar cadáveres às costas"
O homem aproveitou as férias para ir à Ucrânia buscar o filho. Já estava em Portugal há cinco anos com a mulher e, finalmente, optara por viver aqui, onde começavam a fortificar as raízes que, na sua Pátria fria, não tinham vingado.
Ontem, de regreso ao trabalho pelas oito da manhã, voltou a pegar no camião que conhecia bem. De Alcobaça para Alverca, optou por ir pela CREL e, sem que se perceba bem o que teria acontecido, o camião embalou-se na perigosa descida da A9 e acabou por capotar junto às cabines da portagem. E o homem ficou ali.
Foi a notícia do dia de ontem e calhou-me a mim, em regresso de férias, ir a Alverca, contar o que se passou. Sempre testemunha à posteriori relatando os factos que polícias, bombeiros e outras autoridades descrevem. Mesmo habituada, por força das circunstâncias profissionais, a lidar com tragédias destas, fiquei impressionada com o que vi. Com o que soube. E sempre que tenho de enfrentar situações destas lembro-me do cigano, um sábio inspector de polícia, que cansado de construir muros com as tragédias dos outros, no rescaldo de mais um homícidio desabafou com duas jornalistas que o convidaram para beber um café: "Estou farto de carregar cadáveres às costas".
Como nós percebemos o cigano, não é Marmar?
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segunda-feira, junho 04, 2007
Duas dúzias de paciência, faz favor
Vou deixar de ler notícias. Ah, é verdade, não posso. São o meu ganha pão. Mas em dias como hoje, sinceramente, esperava notícias diferentes. Por exemplo, daquela que me diz que o governo prepara um projecto de lei para contrariar administrativamente a vontade eleitoral dos cidadãos ou de não recordar que um chefe (que a Terra lhe dê paz) me disse, há 18 anos, que mil tombados em Tiananmen significavam apenas dois ou três em Lisboa.
Há dias em que esperava notícias melhores.
Há dias em que esperava notícias melhores.
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segunda-feira, maio 28, 2007
Homens pequenos
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, não autorizou a renovação da concessão de licença a uma televisão independente, por não a poder controlar. Fica-lhe mal. Sobretudo, dá razão aos seus críticos (como lhes chama "imperialistas") de que age com um ditador. Bem sei, que não vi os seus críticos dizerem que as condições sociais na Venezuela melhoram nos últimos anos, que o salário mínimo aumentou 40% e que a tributação fiscal diminuiu. Ou, tão pouco, recordarem que foi eleito por esmagadora maioria dos seus co-cidadãos. Mas fica mal a Cháves actuar com arrogância sobre aqueles que se lhe opõem. O presidente da Venezuela demonstra assim que despreza a liberdade, um desprezo que vai muito para além da liberdade de expressão. E isso não é tolerável.
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sábado, outubro 14, 2006
O anjo dos esquecidos
Com a devida vénia republico a crónica da minha camarada Carla Aguiar, jornalista do Diário de Notícias, sobre o Prémio Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus.
É por ocasiões destas que ainda penso que vale a pena acreditar e ser jornalista... para dar a conhecer. Obrigada Carla.
Não é muito ortodoxo, bem sei, uma jornalista estar na assistência de uma conferência internacional e puxar do lenço porque já não consegue mais conter as lágrimas, desatando em tão ruidoso quanto embaraçoso assoo. Afinal, o dever de ofício obriga a algum distanciamento crítico e ensina-nos a suspeitar até da mais comovente das intervenções. Mas - e esse é o segredo de Muhammad Yunus - toda a resistência céptica desmorona-se perante o exemplo de humanismo e sabedoria transcendental que transborda daquele pequeno homem de aparência simples e espírito elevado. E que nos relembra verdades cruas: "Os pobres são apenas pessoas bonsai . Tal como as árvores, se forem colocadas em vasos pequenos, podadas e sem espaço, nunca ultrapassam um determinado tamanho.
"Como não sucumbir às palavras de um homem que dedicou 30 anos a lutar pelo direito à dignidade dos mais pobres, que não está na esmola, mas na consagração institucional do direito a condições de partida, através do acesso ao crédito? Combater a indiferença e acreditar nos homens é a sua divisa. Há 30 anos, no Bangladesh, Yunus percebeu que bastava o acesso a 27 dólares para libertar um grupo de 40 mulheres artesãs das garras dos agiotas. Nunca mais parou. E contribuiu para tirar vários milhões da pobreza extrema em todo o mundo.
Quando Yunus ergue o seu corpo franzino, envolto num shalwar kamiz - o tradicional fato de túnica larga e calça - e nos diz, iluminado, que "é possível mudar o mundo" sinto o dever de acreditar. E de mudar.
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