sexta-feira, maio 25, 2007

Recantos

A solidão dos campos do Alentejo

Amarras que nos prendem

Um abanão na Ota

Leio no Expresso Online que um terramoto na Área Metropolitana de Lisboa afundava a Ota e o Seixal. O prognóstico é feito por uma especialista em Protecção Civil. À Ota, só faltava mesmo era a hipótese de um terramoto para pressionar o governo a não construir ali o aeroporto. Mas o mais interessante nesta notícia - que perante a oportunidade política do tema em apreço até fica remetida para segundo plano - é que quase um quarto dos quartéis de bombeiros da região e um terço das esquadras de polícias não resistiriam ao abalo telúrico.
Significa, portanto, que podemos dormir descansados, pois em caso de uma catástrofe desta dimensão, se conseguíssemos sobreviver ao impacto, o mais provável é que não nos chegasse apoio em tempo útil e os nossos bens fossem rapidamente saqueados.

Chuvas de Maio

Chove em Lisboa e a minha cidade fica, assim, triste. E eu, solidária, fico triste com a minha cidade.

quinta-feira, maio 24, 2007

Uma certa ingenuidade campónia

Pensava eu que só o ministro da Economia dizia disparates, assim despudoradamente, quando o ministro das Obras Públicas se saí com esta de considerar a margem sul um deserto.
Torna díficil a atribuição do Óscar "Se não sei o que digo, porque não consigo ficar calado?".

quarta-feira, maio 23, 2007

Silêncios

Nunca gostei de muros. Nem de barreiras. Ou de distâncias. Separadores de vontades, mais rígidos que os quilómetros. Os muros de silêncios aumentam as distâncias. E com eles perde-se tudo o que se poderia ver, para lá das palavras. Podemos saltar. Mas temos medo, por não sabermos o que está para lá do muro. Ou temos medo porque imaginamos o que iremos encontrar. Alimentamos a certeza do que imaginamos. E a olhar o muro, ficamos assim, com as mãos vazias do que perdemos. A ouvir o som doloroso do silêncio e a enganar as saudades do que imaginámos. Se tivéssemos saltado, quando quisemos ficar parados. É de fel este engano que nos molda o esforço.

A quente Primavera de Lisboa


Carmona Rodrigues formalizou a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Como independente.

Faz bem em apresentar-se a eleições, depois de ter sido forçado a abdicar quando o partido que o elegeu lhe retirou o tapete. Assim, e perante o escrutínio popular, veremos quanto vale o seu desempenho enquanto presidente de câmara. Não foi um percurso fácil para Carmona Rodrigues. Admito que se possa ter sentido usado pelo partido que tão depressa lhe deu apoio como lho tirou, mas também não foi isento de mácula o seu percurso, de entradas e saídas na CML. Enquanto responsável máximo pelas políticas e pelas opções feitas (algumas herdou é certo) terá também de assumir as suas responsabilidades.


Conhecidos os nove candidatos - António Costa (PS), Helena Roseta (Independente), Carmona Rodrigues (Independente), Rúben de Carvalho (CDU), Sá Fernandes (Bloco de Esquerda), Fernando Negrão (PSD), Telmo Correia (CDS/PP), Gonçalo da Câmara Pereira (PPM) e Garcia Pereira (MRPP) - parece garantido que a cidade continuará ingovernável por mais dois anos, tanto mais que o novo executivo camarário (com o presidente de câmara e 16 vereadores) terá sempre uma configuração política muito diferente da Assembleia Municipal.

Foi isso que desejaram aqueles que forçaram eleições em Lisboa, antes do tempo.

Os dois independentes - que preferia tratar por cidadãos que não reuniram apoios de partidos políticos - vieram baralhar as contas partidárias e a futura divisão do número de vereadores.

É por causa desta previsível ingovernabilidade de Lisboa que não faltarão nos próximos dias os apelos dos partidos políticos ao voto útil. Resta esperar para ver quem é que os lisboetas consideram ser útil.

Fígados

Este meu fígado ainda me mata.

As reflexões do ministro da Saúde

O ministro da Saúde anda a pensar se deve ou não proceder a um reajustamento nos pagamentos das taxas moderadoras e obrigar as crianças com menos de 12 anos a ser contribuintes activas do Serviço Nacional de Saúde. Ou seja, pagando os cuidados clínicos que receberem.
Parece-me bem. E deixo aqui já uma sugestão ao dr. Correia de Campos: porque não sugerir ao seu colega do trabalho e da segurança social que nos liberte desse conceito absurdo do trabalho infantil, inventado pela esquerdalhada? Os oito anos parece-me uma idade razoável para começar a trabalhar - aprende-se uma profissão e fazemo-nos, desde cedo, homens e mulheres. Não inventamos nada, isto era a realidade do princípio do século XIX e a humanidade evoluiu até hoje. E que evolução, como sabemos. E já agora sugira também à sua colega da educação que esqueça lá isso do ensino obrigatório, o qual de gratuito já pouco tem.
Com estas medidas interventivas e de grande alcance social sempre o Estado arrecadaria mais uns milhões de euros, que tanta falta fazem para pagar as assessorias políticas esses pilares indispensáveis à nossa vida democrática.
Enquanto pensa sr. Ministro, esteja confiante porque nós andamos todos entretidos a procurar a menina inglesa raptada no Algarve e a tentar descobrir se um professor do Norte insultou mesmo a mãe do sr. Primeiro-ministro. Temos uma greve geral marcada para 30 de Maio, por estas e por outras razões, mas afinal que importância tem isso?

terça-feira, maio 22, 2007

Juventude politicamente correcta e envergonhada?


Gostei de ver o cartaz da Juventude Socialista, assinalando o dia mundial da luta contra a homofobia no Marquês de Pombal, bem no centro da minha cidade que quero sentir cada vez mais Tolerante. Fica bem à JS. Dá-nos um ar assim, modernaços, tipo espanhóis, sei lá...

Bem sei que é um caminho, porque do outro lado da fronteira já passamos da tolerância para os actos, que é como quem diz do reconhecimento envergonhado para a assunção de direitos.

Mas pronto, fica bem. A fotografia claro também é sugestiva, pois seria muito mais chocante se fossem dois homens (percebe-se que as mulheres ficam muito bem nestas fotos). Mas fica-me apenas esta dúvida, provavelmente muito existencial: Como não encontrei mais nenhum cartaz destes em Lisboa, será que o facto de ser apenas um outdoor esconde uma irreverência políticamente correcta, mas muito envergonhada?

domingo, maio 20, 2007

Os portugueses, os europeus e o tempo livre

No dia da Família ficamos a saber, com dados oficiais, que os portugueses têm cada vez menos filhos e que aqueles que os têm não tencionam dedicar-lhes mais tempo e menos alterar a sua vida profissional para cuidar deles. Ao contrário da tendência que se verifica nos restantes países europeus.
Parece-me que também em matéria de família e de afectos temos um atraso de 30 anos, isto já para não falar da nossa relação com o trabalho - ou será com o emprego - que, pelos vistos, continuamos a olhar como uma forma de ascensão social e não de necessidade social.
A notícia veio no Público Online e compara também (em sondagem) o nosso conforto social.

sábado, maio 19, 2007

Um dos mais belos Jacarandás de Lisboa


Fica na Rua Barata Salgueiro. A foto ilustra o principio da floração, que deve atingir o seu auge na próxima semana

Instantâneos de Lisboa II











Mas há em Lisboa uma outra cidade, de pessoas, de espaço e de mobilidade. É bem mais bonita esta cidade. E cativante.











Instantâneos de Lisboa







A minha cidade congestionada, bloqueada, sem espaço para o peão e ainda com espaço para a construção em altura.




sexta-feira, maio 18, 2007

4000 para 'empurrar' um independente

Parece-me incrivel que a democracia participativa em que tantos políticos alegam que vivemos obrigue uma candidatura independente a ser suportada por quatro mil assinaturas, quando um partido político, mesmo que em eleições tenha obtido muito menos do que quatro mil votos, possa concorrer a eleições só por ser partido político.
Não são independentes que a nossa democracia não quer: a nossa democracia não parece querer movimentos cívicos, à margem dos partidos. E isso parece-me mal.

De ananases...

Depois da explosão das flores de jacarandá - estão lindos no Rossio e em Santa Apolónia - se continuarmos com estas temperaturas em Lisboa não me admirava de ver nascer ananases nos passeios. É uma Primavera muito quente, esta que estamos a viver na minha cidade.

quarta-feira, maio 16, 2007

O que vale a assinatura de um candidato?

A despeito das falsas ingenuidades, gostei de ver o candidato do Bloco de Esquerda, José Sá Fernandes, a subscrever a propositura de candidatura de Helena Roseta à Câmara de Lisboa.
Quem bem ficaria a António Costa, Rúben de Carvalho e Fernando Negrão fazerem o mesmo.

Os autarcas arguidos

Confesso que não entendo a lógica do PSD ao avançar com o nome de Fernando Negrão para líder da lista à Câmara de Lisboa. E não entendo porque o deputado Fernando Negrão é arguido, como todos os restantes vereadores da câmara de Setúbal, no processo das reformas compulsivas. Apenas por um expediente administrativo, decorrente do facto de ser necessário pedir autorização ao Parlamento, Negrão não foi ainda constituído formalmente arguido. Mas ele sabe, e o PSD também, que será tão arguido como os demais.
É certo, pode dizê-lo o PSD ou Fernando Negrão, que só será arguido porque a votação das reformas compulsivas foi feita por voto secreto, o que obriga à constituição de todos os vereadores como arguidos. Mas não me parece que do ponto de vista da seriedade política possa haver arguidos de primeira ou de segunda.
Por isso, não entendo a lógica social-democrata que fez lei para Isaltino Morais, por exemplo - mesmo sem acusação deduzida -, e agora para Carmona Rodrigues, já para não falar em Fontão de Carvalho ou Gabriela Seara, e não faz lei, a mesma, para Fernando Negrão, o juiz que trocou a magistratura pela vida política e que foi acusado de ter violado o segredo de Justiça e ter dado informações falsas a jornalistas.
O PSD não tinha mais recursos? Custa-me a crer. Mas também observo que Marques Mendes, se matou com o seu próprio veneno, quando a pretexto da tal seriedade política jurou a pés juntos que o PSD não apoiaria autarcas com questões não resolvidas com a justiça.

A transparência dos processos, parece-me absolutamente fundamental na vida democrática, tal como a credibilidade dos políticos. Mas em igualdade de circunstâncias está a presunção de inocência das pessoas, que sempre deve existir até ao julgamento. E quando estas estão mais expostas na vida pública é natural que possam ser alvo de processos de intenções, cabendo à Justiça a importante tarefa de não se deixar instrumentalizar.
Ainda há poucos dias, o Procurador da República antes de pedir a absolvição do presidente da câmara de Vila Nova de Poiares que estava a ser julgado, entre outros por crimes de peculato, admitia que o Ministério Público tinha sido instrumentalizado, por pessoas que, com intenções político-partidárias, se serviram da Justiça para conseguir em tribunal o que o voto popular não lhe tinha dado: o Poder.

sexta-feira, maio 11, 2007

Uma esperança para Lisboa

Gostei de ouvir Helena Roseta no canal 2, ontem. E senti nas suas palavras esperança para a minha cidade. Uma esperança que nasce na necessidade de renovação da política e na envolvência dos cidadãos na gestão da sua cidade. Ainda há quem tenha coragem e determinação para actos voluntariosos, em tempos de indiferença, e quem se sente com força motriz suficiente para mudar a lógica de intervenção política na cidade. Valorizando o seu principal capital: as pessoas. Só por essa esperança a candidatura de Helena Roseta já vale a pena.

quinta-feira, maio 10, 2007

Começou a explosão dos jacarandás

É oficial. Hoje, dia 10 de Maio de 2007 surgiram os primeiros cachos de flor nos Jacarandás do Rossio, da rua Barata Salgueiro e do Parque Eduardo VII. Creio que os 30 graus que nos úlitmos dois dias se fizeram sentir, contribuíram para a antecipação do período de floração.
São flores tímidas ainda, mas auspiciam já a imensa floração que deve atingir o seu auge nas próximas duas semanas.
Fica bonita, assim, a minha cidade.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os tortuosos caminhos da (in)Justiça portuguesa

O Tribunal da Relação de Coimbra acabou de apreciar um recurso do sargento Luis Gomes, o pai adoptivo de Esmeralda, e determinou a sua libertação imediata, com pena suspensa - consequência da redução da pena de rapto a que o tribunal de Primeria Instância o havia condenado. Foi a forma airosa de reparar uma injustiça flagrante que, muito justamente, indignou todos os que amam, por generosidade.
São tortuosos os caminhos da Justiça portuguesa, uma justiça (com caixa muito baixa) que pensa que os pais só por conceberem e darem à luz são donos dos filhos.
É uma justiça rídicula, escudada numa lei fria e doente, que não tem em conta os afectos e, sobretudo, não tem em conta os modos de vida, a esperança e, neste caso, o direito de uma criança a viver com aqueles que, não sendo seus pais de sangue, lhe chamam filha, com todo o amor do Mundo.
A minha mãe sempre me disse, e eu aprendi, que parir é dor e criar é amor. Pode o direito das leis compreender isto? Pode, mas se calhar com outros magistrados, com menos nós na cabeça.

terça-feira, maio 08, 2007

No País do Simplex (ou será dos simples...)

Eu já sabia que os preços dos notários eram diferentes, de uns para os outros. Até sabia, que os actos formais de reconhecimento de assinatura, ainda que simples, podem demorar muito tempo. O que eu não sabia, de todo, é que uma procuração para um acto simples tem dois preços, isto se a procuração for dactilografada ou escrita pelo próprio manualmente e na presença do escrivão.
Eu explico:
a) Se eu levar uma procuração dactilografada e, na presença do escrivão, a assinar pago qualquer coisa como 45 a 48 euros. Eu e o escrivão perdemos 5 minutos: eu a assinar e ele a reconhecer a minha assinatura, sinónimo da minha vontade.
b) Se eu escrever a procuração ali no momento, perante o escrivão, seguindo a minuta previamente estabelecida, pago qualquer coisa como 8 a 19 euros. Eu e o escrivão perdemos, no mínimo, meia-hora. Isto se a procuração for passada por mim que fiz a 4ª classe, pois se for passada por uma pessoa que tenha dificuldade em escrever poderemos passar ali uma hora.
Os dois preços significam a diferença do mesmo acto, que eu encontrei num cartório de Lisboa e num cartório do Cartaxo.
Confusa na falta de senso, explicou-me o paciente funcionário: assim eu verifico que a pessoa que assina está consciente - porque escreveu pelo seu pulso - do teor da procuração que passa.
E se eu levasse a procuração já feita não estaria consciente do acto?
Convém recordar que este acto notarial consiste no reconhecimento da assinatura através do Bilhete de Identidade e não na escrita da pessoa que manifesta a vontade de designar outra seu(ua) procurador(a).
Das duas uma: ou andamos todos maluquinhos ou andamos a brincar ao faz de conta que vivemos num País moderno e descomplicado.
Volta Max Webber, estás perdoado.

Uma petição para que nada fique na mesma...

Está a decorrer uma petição online para exigir o apuramento de responsabilidades sobre o abate de 200 plátanos e jacarandás no Jardim do Campo Pequeno.

Parece-me fundamental que os cidadãos de Lisboa conheçam o(s) parecer(es) técnicos que serviram de suporte ao abate das árvores. Parece-me igualmente essencial do ponto de vista da transparência dos actos administrativos - e para que se possa afastar de vez quaisquer suspeitas - que seja conhecido o protocolo celebrado com a empresa responsável pelas obras da antiga praça de touros.
Foi também por isso que subscrevi a petição.
http://www.gopetition.com/online/12119.html

segunda-feira, maio 07, 2007

Os cheiros que deixámos de sentir no Campo Pequeno

Ainda tenho no corpo uma mistura de alecrim, alfazema, cidreira e loureiro que a minha mãe me pos nos braços, antes de me vir embora. E é com estes cheiros que leio o correio electrónico de hoje, com muitos apelos à indignação contra o abate das árvores do Campo Pequeno.
Caíram primeiro as árvores do que a câmara, mas todos somos poucos para denunciar o crime. Para que os Jacarandás e os Plátanos não tenham caído em vão. Contem comigo.

Continuar a acreditar

Reli o último post e, de revés, olhei para o rodapé deste blog onde Brecht me continua a lembrar que não estou cansada. Apesar do Sarkozy e do Alberto João, eu continuo a acreditar em milagres. Há coisas que só se explicam pela fé.

domingo, maio 06, 2007

Milagres ou talvez não

Acredito em milagres. Por isso tenho de acreditar (sem entusiasmo) que a Segolene será a próxima presidente de França e que o Alberto João vai finalmente perder a maioria absoluta na Madeira.

A força de Vanessa


Vanessa Fernandes é campeã do Mundo de Triatlo. E foi quase comovente ver a sua força de distanciamento perante as restantes atletas. A cada passada determinada, sem cansaço. Uma força que só me lembro de ver no pai, em cima da bicicleta, a trepar para a Torre. Parabéns Vanessa.

sábado, maio 05, 2007

As flores do meu cacto


O meu cacto dá flores uma vez por ano. Em Maio, quando o Sol anuncia a chegada breve do Verão. São flores lindas, amarelas, que duram poucos dias. Merecem por isso um registo.

sexta-feira, maio 04, 2007

Caem primeiro a câmara ou as árvores do Campo Pequeno?

Além dos 97 plátanos vão ser abatidos também vários Jacarandás no Jardim do Campo Pequeno. Num total de 200 árvores. Parece que as folhas estavam a entupir as vias de escoamento de água. Afinal, não eram as raízes danificadas... como alegava o vereador Prôa.
E embora o vereador já se tenha demitido, respondendo rapidamente ao apelo do seu chefe partidário, deixou activa a condenação das árvores.
Por isso só espero que a câmara, toda ela, caía antes. Já, rapidamente. Para que os Jacarandás do Campo Pequeno possam florir, lá para o fim de Maio.

quinta-feira, maio 03, 2007

Almoços à beira Tejo




Sabem-nos bem os almoços com amigos. Ainda que sejam demasiado rápidos para a nossa vontade de continuar. Assim sem mais. Com a mesma cumplicidade de quem basta um olhar para saber que o outro está ali. E não deixar passar as coisas que no dia-a-dia não vemos ou não estamos disponiveis para ver. São momentos de pausa que nos enchem de esperanças.
Soube-me bem estar ali a snifar o meu rio. E senti-lo o cordão umbilical que me prende à cidade.

Arquitectura do sim

Da Risoleta, com o fascínio pela prosa e pelos significados,
Foi numa conferência na minha escola com o arquitecto Graça Dias em que este apresentou vários projectos criados em parceria com José Vieira, que me apercebi que existem pelo menos dois tipos de arquitectura: a do sim e a do não. Há-de haver também a do talvez, a do nem por isso, a do antes pelo contrário, etc. À parte ter escrito uma ficção sobre um arquitecto, não percebo nada de arquitectura, por isso fui assistir à conferência. E percebi que, para além das concepções estéticas, é possível conceber uma casa, um teatro, ou um projecto urbanístico, com o coração aberto ou com o coração fechado. No fundo, um projecto arquitectónico é como as pessoas, porque é concebido e realizado por pessoas. Pode vir a implantar-se no mundo virando as costas a tudo o que não gosta, ou pode ter uma atitude tolerante, integradora, eu diria: alquímica. Sabemos que os projectos são propostos aos arquitectos e nem sempre o factor envolvente é aquele que eles teriam eleito: poderão ter como cenário edifícios empilhados de estilo galinheiro, casas de emigrantes como todos sabem que elas muitas vezes são, descampados desoladores e desolados, e por aí fora. Perante isto podem recusar, ou isolar-se orgulhosamente procurando levar a cabo projectos solitários e negando a realidade, acreditando que estão sozinhos a contribuir para a salvação estética do espaço. Quem sabe se do mundo também. Ou podem: olhar, reconhecer, aceitar, dialogar, integrar. Inclinando-se, elevar-se e elevar. Não sei falar sobre arquitectura, mas sei perceber quando um artista (uma pessoa) abre o coração ao mundo e o integra. E o transforma. Perguntar-me-ão: “E a estética?”. Responder-vos-ia: “E a ética?” Experimentem escrever “est-ética” sem “ética” e obterão um mero prefixo. Com prefixos não se faz arte. Nem amor. Talvez estes arquitectos, perante esta minha reflexão, argumentassem que tal não lhes passou pela cabeça, que não se preocuparam com a ética, que quiseram ser eficientes e funcionais. Eu continuo a achar que estamos a falar do mesmo. Não conheço eficiência sem ética, não conheço eficiência sem coração. Isso seria fria lógica e quando tal aconteceu na história, a qualquer nível, os resultados foram sempre catastróficos. Nesta conferência aprendi que se sou um teatro por nascer e se aquilo que me rodeia é um muro alto, uma estrada do outro lado e um edifício triste do outro, é um facto que não posso virar as costas ao meu meio, o melhor será ver com o que conto, olhar pelo lado da luz e do espaço, e perceber que a estrada me conduz ao mundo e o mundo até mim, que o muro afinal revela umas belas árvores e que o edifício abriga pessoas. Afinal, nada mau, para começar, e tudo depende do que EU fizer com isso. Os dados estão lançados. Cabe-me a mim agora jogar. Posso amuar, posso fechar-me, ou posso respirar e conversar. Com o olhar. E enfim, posso sempre dizer sim.

Decisões de princípio(s)

Decidi pelo cigarro. É mais fácil do que deixar o café. Obrigo-me a acreditar que a consciência disso poderá ser uma motivação. Veremos.

quarta-feira, maio 02, 2007

A terapia da escrita

Escrever é um acto de coragem e de libertação. Mesmo sem publicar, mesmo sem razão, por vezes tão somente nos ajuda a organizar ideias. Não importa como se escreve, nem o que se escreve. Há quem lhe chame terapia da escrita. Provavelmente será, mesmo quando a poesia nos chega em forma de prosa. Ou será, quando a prosa nos devolve lições de poesia?
De qualquer forma, a escrita sempre me reconciliou com a vida. O papel e a palavra, puxam por mim obrigando-me a reflectir. Sem me dar tréguas. Mesmo quando não quero ou estou distraída. Ou irascível.

As noticias que nos chegam

Ouvi ontem alguns telejornais e as notícias da Venezuela. Não ouvi uma única palavra sobre o aumento de 20% do salário mínimo ou - até - sobre a redução do horário de trabalho de 8 para seis horas diárias. Ms ouvi as palavras de Chavez a opor-se ao FMI.

terça-feira, maio 01, 2007

Decisões difíceis

Ando a ponderar abandonar os cigarros ou o café. Ainda não me decidi.

O trabalho, na Venezuela


Nas primeiras notícias da manhã leio que Hugo Chavez, o populista e marxista presidente da Venezuela, a quem o Ocidente muito deve a recessão económica deste inicio de século, decretou um aumento de 20% do salário mínimo e a redução do horário de trabalho para 6 horas diárias (30 horas por semana).

Da América Latina surgem sinais de mudança, de uma nova ordem mundial, mais tolerante e fraterna. Fraquezas de quem sempre teve uma costela sul-americana.


Quantos trabalhadores se consumiram na luta para que hoje fosse feriado? Quantas marteladas teve o meu pai de dar no dedo para não trabalhar nos 1ºs de Maio, sob o jugo da tirania fascista?

Poderemos nós, a uma distância de 30 anos, compreender.

O Leopardo

Ao ler o novo que se avizinha, lembrei-me de Tomasi di Lampedusa e da sua filosofia desesperada de impotência: É preciso que tudo mude, para que tudo fique na mesma. Assim ficará. Como no Gattopardo.

De cara lavada

A minha cidade acordou hoje de cara lavada, depois de uma noite chuvosa. O meu rio espelhava uma tranquilidade de prata, ali para o Mar da Palha. E eu agradeço aos céus terem poupado o meu nariz dos acáros. Como a Natureza, renascemos depois das crises.

segunda-feira, abril 30, 2007

Ventanias

Está uma ventania endiabrada em Lisboa. As árvores vergam-se e sacodem as folhas distribuindo poléns pelo ar. Sei que o meu nariz se irá ressentir, mas espero ultrapassar a crise alergica. Sem anti-histamínicos. Anseio agora uma chuva que tudo lave e permita o renascer de novas folhas.

domingo, abril 29, 2007

Ligação à terra

Há um perfume intenso de flores no ar e deixo-me comover pelos tons dos campos. Gosto do aroma a terra molhada, depois da rega, e de saborear as nêsperas já maduras. E de parar à beira da estrada para dançar o "True colors" da Madona, para espanto dos putos. Há mães, assim, que só envergonham os filhos.
É doce este tempo de manteiga a correr-nos pelos dedos (in Álvaro de Campos). Sem fingimentos.

sábado, abril 28, 2007

Derbys

É sempre um momento mágico quando o Sporting ganha ao Benfica. Que seja um bom jogo, para eu deixar de ter medo de me meter num estádio de futebol.

sexta-feira, abril 27, 2007

A luz branca de Lisboa


A câmara de Lisboa definha lentamente. E a cidade agonia com a gestão. É insustentável o peso sobre os seus cidadãos. Acossada de vários lados, Lisboa está parada. Tornou-se uma cidade indiferente às suas pessoas. A estratégia, a ter existido, morreu sufocada por uma divida financeira incapacitante.

Tudo parece dar errado na cidade.

O fiasco do Parque Mayer, e o dinheiro que se gastou, o Túnel do Marquês, cuja utilidade ainda está por provar e que abriu à circulação c0m dois anos de atraso e ainda por cima cheio de gaffes, a assunção dos terrenos sul do Parque das Nações que nunca foi feita, as 53 piscinas - uma por freguesia - prometidas em campanha eleitoral, a degradação das vias de circulação, a asfixia financeira, por arrastamento, das juntas. A ligação estranha, sempre suspeita, ao imobiliário. Ainda me lembro que, logo nos primeiros seis meses da gestão de Pedro Santana Lopes, arderam seis ou sete edifícios devolutos na cidade.

Pessoalmente tenho pena pelo prof. Carmona Rodrigues que, malgrado a minha péssima avaliação das pessoas, sempre me pareceu um técnico qualificado e capaz de assumir o barco, mesmo em alturas de intempérie. Quero-me lembrar de uma nota positiva nestes últimos dois anos de gestão da cidade e não me lembro de nada.

Já não dá mais. São buracos demais para uma cidade com uma luz branca tão bonita. Gosto tanto da minha cidade e do meu rio que o meu desejo seria vir passar a férias a Lisboa.

Os planos e os licenciamentos

O primeiro-ministro anunciou hoje no Parlamento a simplificação dos processos de licenciamento e, basicamente, que os planos municipais de ordenamento do território (essas coisas lindas que já entraram no nosso léxico comum chamadas de PDM's, PP's, PU's, etc) vão deixar de ser submetidos a ratificação do Conselho de Ministros.
Pareceu-me bem e até me pareceu mais: que é uma medida com 20 anos de atraso.
Também ouvi o sr. engenheiro dizer que as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR's) já não terão, obrigatoriamente, de acompanhar a elaboração destes planos.
Confesso que já não me pareceu tão bem, mas apesar de tudo concordo.
Em respeito pelo principio da desencentralização administrativa do Estado, e até da subsidiariedade, sempre me pareceu que os Municípios, para o bem para o mal, deviam ser responsáveis pela gestão dos seus territórios. E isso implica planear e tornar eficaz esse planeamento.
Tenho reservas quanto ao facto de as CCDR's deixarem de acompanhar o processo de elaboração dos planos municipais, uma vez que estes, em obediência à hierarquia das leis, têm de respeitar os planos de ordem superior (PROT's, POOC's, etc ) e, sobretudo, entrecruzar os vários PDM's de uma dada região.
É também para isso que a regionalização serve. Mas enquanto não existe deviam as CCDR's assumir essa coordenação regional, para que cada municipio no acto de planear o seu território tenha em conta o contexto regional onde se insere. Continuo muito interessada em ver na letra de lei, como vão ficar estas propostas.

Vidas paralelas

Leio agora na Lusa que um empresa, a Linden Labs, está a desenvolver a Second Life, uma ferramenta na Internet que permite simular uma vida paralela à real. Não só para possibilitar o lazer, como para promover negócios. Os promotores assumem, sem qualquer pudor, tratar-se de um escape. É fantástico. Eu acho até que podemos passar bem sem o calor dos afectos, pois qualquer teclado nos assegura um transporte para o paraíso que desejamos. Talvez falte o convívio, mas é tudo uma questão de hábito.

quinta-feira, abril 26, 2007

Os plátanos de Lisboa


Ontem passei pelo Campo Pequeno e olhei de frente os 97 plátanos que a câmara de Lisboa condenou à morte. Que são árvores doentes, nas raízes, danificadas pelos camartelos das obras, alega o vereador. E eu que olhei as árvores de frente, sem lhes ver qualquer doença, fiquei com vontade de meter uma câmara de vigilância nas raízes.

Já tenho saudades dos plátanos do Campo Pequeno. E não consigo compreender as razões de tamanha brutalidade.

Das avenidas de Braga

Surgem notícias de encontros de pessoas atentas à realidade da sua região. Será o I Encontro de Bloggers e Leitores de Blogues do Minho, marcado para 30 de Junho, em local ainda a combinar.
Das muitas avenidas de Braga: central, da liberdade, vem o convite para a iniciativa. Primeira de outras que pretendem devolver ao Minho uma voz activa e lançar um verdadeiro debate em torno das questões estruturantes da região.
O desafio é dos blogues Avenida Central, Mater Matuta e Ócio mas está aberta a todos os bloggers e leitores de blogues do Minho. As pré-inscrições podem ser feitas através do e-mail: blogminho@gmail.com.

quarta-feira, abril 25, 2007

25 de Abril sempre

Hoje é Dia da Liberdade. 33 anos depois e ainda me vem à memória a estranheza de ver o meu pai, ao dia de semana, a fazer a barba. Tinha ficado em casa, sem que nada o fizesse prever, ele que em tantos anos de trabalho nunca dera uma falta. Acautelado, avisou a minha mãe "hoje a miúda não vai ao colégio". E eu, aborrecida, lá fiquei, acompanhada, todo o dia, pelo velho rádio de pilhas.
Acho que foi nessa altura que nasceu o meu gosto pelas notícias. Em liberdade!

O homem parado no Inverno

Passaram quantos anos? 16, 17? Cruzámo-nos na via profissional e, ao primeiro olhar, percebemos a confiança que depositavamos um no outro. Eu estava a começar nos jornais, ele era um policia sénior. Vivamos um tempo difícil, como estes que atravessamos agora. Tantas estórias vivemos. Ele na frente das lutas pelo direito ao sindicalismo, pelo direito à dignidade da polícia, por melhores condições profissionais e eu na fiel descrição de uma realidade que afrontava o poder.
Mas havia mais, muito mais, entre nós. Uma cumplicidade que nasce das ideias, dos silencios e das palavras e nos tornava solidários e afectuosos. Uma cumplicidade tal que sabíamos sempre até onde poder ir. Foram anos de namoro cerrado. De charme. Ficámos amigos. Cruzámos as nossas famílias.
Vi os filhos dele crescer, assisti à sua separação e ao seu reencontro, amparei-o quando se perdeu nas escolhas da vida. Estive dos seu lado sempre, mesmo nos momentos em que quase o derrubei com palavras ou em que o vi tomar opções desastradas. Ele esteve comigo nos momentos mais dolorosos, de maior incerteza. Em Braga, na chegada e na partida.
Mesmo quando a mágoa foi maior, ambos sabíamos que o outro estaria ali. Comecei por lhe dizer que era o meu polícia preferido, e hoje ele sabe que é um dos homens da minha vida. Foi sempre.
Agora, quando me disse que vinha cá trazer-me os cravos vermelhos que não comprei, disse-me que tinha andado a fazer arrumações e encontrou um livro do Baptista Bastos. "Um homem parado no Inverno". O meu grande mestre Bastos. Sorri-lhe e ele viu o sorriso da minha memória pelo telefone. "E sabes o que tinha na contra-capa: 'Para que nunca sejas um homem parado no Inverno. Dezembro de 1991'.
Nunca serás, Manel.

terça-feira, abril 24, 2007

Fugas

Este capacete do tempo perturba-me os nervos. Bem sei que até tenho motivos para andar à cabeçada. O boxe, provavelmente, daria um bom escape, mas não resolveria nada. Talvez por, numa fracção de segundo, ter pensdo nisso, não fiz como o Pedro, no Diário do Alentejo, e não atirei um cinzeiro à cabeça de ninguém. Esse controlo tem um preço e continuo a pagá-lo. Tenho saudades de si, Zé.

Sinto-me desafiada a brincar num jogo onde não quero participar. Há jogos a que eu prefiro assistir. Até terem interesse. Algumas pessoas passam a vida a correr sem quererem olhar para as portas abertas. Sem mais, simplesmente abertas. Quando voltarem a passar, haverá portas fechadas. É tão mais fácil.
E eu fico a pensar nas três razões para a arte da fuga: por estupidez, por insensibilidade ou por opção. Infelizmente, quando é por opção, tenho de desistir.
Temos tanto medo de falar uns com os outros. Ms o problema é meu, que continuo sem perceber porquê.

segunda-feira, abril 23, 2007

Da Estrela, sem neve, mas vestida de branco

Fontes de informação privilegiadas lamentaram-me o pior Inverno dos últimos anos na Serra da Estrela. Sem neve, a serra fica nua e parece vazia. Apesar de a região oferecer (cada vez mais) equipamentos alternativos à neve e, do meu ponto de vista, a Estrela ser um dos cenários naturais mais extraordinários para o usufruto da Natureza, o espectáculo do branco não se perdeu. Na Cova da Beira, dizem-me e apertam-me o coração de saudades, estão lindos os campos de cerejeiras.
E eu lembro-me da história da princesa nórdica que, tendo casado com o Rei mouro, tinha saudades do branco dos campos da sua terra. Impotente para mandar na Mãe Natureza, mas com todo o amor do mundo no coração, mandou o rei mouro plantar amendoeiras e cerejeiras pelos campos para que, no dealbar das épocas da neve, ficassem os campos pintalgados de uma plenitude alvar. E assim a sua princesa não morreria de saudades. Haverá amor maior?

Dot.com


O filme de Luis Galvão Teles tinha tudo para ser um sucesso de bilheteira. Se fosse americano, sê-lo-ia certamente.
A sátira de uma pequena aldeia sem saídas, contra um inimigo comum, que retrata de forma exemplar a afirmação da nossa portugalidade face ao nosso tradicional irmão maior. Mas, acima de tudo, revelando com ironia, ora mordaz ora súbitl, a lusitana maneira de ser: de levar tudo à frente, até as soluções consensuais que nos permitem ficar de bem com Deus e com o diabo.
Excelente humor.
Como foi excelente descansar os olhos na mágica aldeia de Dornes e na floresta sobranceira à albufeira de Castelo de Bode.

sexta-feira, abril 13, 2007

As universidades privadas, o diploma de Sócrates e os jornalistas

Quando, em 1999, três jornalistas do Diário de Notícias (DN), nos quais eu própria me incluía, investigaram o que se passava na Universidade Moderna (UM), foi escrito e falado sobre o que ocorria em outras universidades privadas, incluindo a Universidade Independente (UNI).
Nos meus arquivos estão ainda as cartas de protesto, que foram dadas à estampa no DN, mas também as muitas missivas anónimas que recebemos com denúncias de irregularidades, por ventura ilicitudes, que se passavam em vários estabelecimentos de ensino superior privado.
A actualidade veio dar razão ao que então escrevemos. E veio também mostrar, uma vez mais, porque houve tanta celeridade em calar as nossas vozes.
Assisto, agora, ao desenrolar de «informações» sobre a UnI, que são largamente ultrapassadas pela «importância» atribuída ao diploma do Primeiro-Ministro. Não sou apoiante de Sócrates, nem tão pouco votante no Partido Socialista, mas não deixo de ficar espantada com o facto de suspeições se terem tornado matéria noticiosa.
No caso da UM, primeiro obtínhamos as informações, tratávamo-las e, só depois de confirmadas, as publicávamos. Lembro-me, entre outros episódios, de termos ido ao Algarve confirmar algumas coisas…
Hoje, cada suspeita é uma notícia e Sócrates acaba por ser vítima de novos valores que, de algum modo, tem ajudado a construir.
O que é lamentável nesta Comunicação Social, tão atenta a levantar questões, é a leviandade com que (e foi assim que julgaram e condenaram os jornalistas do DN!) NÃO investigam o que se passa, desde há muitos anos, nas universidades privadas.
E não seria despiciente lembrar as suas origens, como surgiram, quem as fez e como e até o contexto histórico-político em que nasceram.

Recordemos: Em 1976 começaram a regressar a Portugal alguns dos professores saneados do Ensino Superior público no pós-revolução de Abril. A maioria tinha emigrado para o Brasil ou para Espanha, em busca da recuperação da vida académica. Todavia, aqueles países também já não eram o El Dorado e, por isso, muitos desses professores aproveitaram a «abertura» política do pós-25 de Novembro de 1975 para refazerem a vida em Portugal.
O poder estava, então, dividido entre a facção mais moderada dos militares de Abril e um Governo de centro-direita, dominado pelo PS de Mário Soares com o apoio do CDS de Freitas do Amaral, personalidades que apelavam à «reconciliação nacional».
Ainda que se pudesse pensar na reabilitação dos «saneados», os tempos não favoreciam a devolução de cátedras aos apoiantes do regime deposto.
A solução discreta para o crescente exército de professores universitários desempregados foi a criação do ensino superior privado, classificado por muitos como o «legado pobre que a revolução de Abril deixou à direita e à extrema-direita em resposta aos saneamentos».
A «inteligentia» do antigo regime tinha, ainda, outros planos: a coberto de projectos pedagógicos aparentemente inócuos reconstituíam vastos e influentes núcleos duros de «saudosistas» dos tempos de Salazar e Caetano, enquanto procuravam criar condições mais favoráveis ao seu próprio regresso aos centros de decisão. Recorrendo a uma ideia da esquerda – as cooperativas – foi possível planear estas novas universidades, acolhedoras dos defensores dos ideais da direita e abertas, ainda, aos interesses de organizações «secretas» como a Maçonaria e a Opus Dei. Também o dinheiro, escasso de início, começou a afluir em catadupa, quando milhares de estudantes se viram forçados a obter nas privadas os «canudos» que o numerus clausus das universidades públicas lhes negava.
Curiosamente, o Instituto António Sérgio, entidade competente para fiscalizar o sector cooperativo, nunca tomou nenhuma atitude contra o incumprimento das normas que deveriam reger estas cooperativas, que acabaram sempre por ser geridas como empresas privadas ou sociedades por quotas.

E hoje, diante do sucedido com a UM e a agora a UnI (entre outras que vão sendo faladas mais ou menos em segredo), continuam a ser levantadas questões a que ninguém responde e a capacidade de investigação dos jornalistas cinge-se a divulgar processos em tribunal, queixas na Procuradoria Geral da República, ou a levantar suspeições sobre situações de valor certo – mas seguramente menor – como o diploma do primeiro-ministro…

terça-feira, abril 10, 2007

A música, a tolerância e as cidades vibrantes

Há alguns dias, António Câmara, o coordenador científico da conferência "Cidades Criativas", organizada pela Associação Nacional de Municípios, que contactei no âmbito da cobertura desse acontecimento, disse-me que a música é um talvez o melhor impulso para a criação de cidades vibrantes, onde apetece estar e viver.
Vem isto a propósito de uma notícia de hoje. Durante quase uma hora, o violinista Joshua Bell tocou o seu Stradivarius de 1713, avaliado em 3,5 milhões de dólares, numa estação de metro de Washington, como se fosse um músico de rua.
A experiência, patrocinada pelo jornal Washington Post, permitiu perceber que o célebre pianista - cujo concerto três dias antes no Symphony Hall em Boston tinha esgotado, embora os bilhetes custassem cerca de 80 euros - despertou pouca ou nenhuma atenção no átrio da estação L'Enfant Plaza. Das mais de mil pessoas que passaram à frente dos acordes de Bell, nesses 45 minutos, apenas as crianças iam parando e atrasando o passo dos pais que as arrastavam para o transporte.
Na análise do acontecimento, o W. Post considera que o simples facto de as crianças se sentirem tentadas a parar para escutar a música de Bell significa, tão somente, que todos nascemos com poesia. Que perdemos ou sufocamos ao longo das nossas vidas.
Deixamos de ouvir: a música na rua, os outros...
Daí que a conversa com António Câmara (publicada no DN), me tenha assaltado à memória. É que as cidades criativas erguem-se da massa de talentos diversos que consigam mobilizar e manter, independentemente do tempo ou do lugar. Territórios onde o Talento, a Tolerância e a Tecnologia se cruzam num ambiente vibrante e ligado pelas artes. Será utopia pensarmos cidades assim? Mas não nasce a realidade de uma boa dose de utopia, aliada à loucura?

Depois penso na rapidez com que a câmara de Lisboa decidiu retirar o cartaz do Gato Fedorento do Marquês de Pombal – porque supostamente não tinha licença - e apetece-me dar pontapés nas pedras. Falta, pelo menos, um T a Lisboa e eu tenho pena que seja o da Tolerância.

segunda-feira, abril 09, 2007

Nas estradas, como no quartel, tudo na mesma

Só para que conste:
Hoje as notícias da rádio, reforçadas pelas palavras de um oficial da Brigada de Trânsito, davam conta de uma diminuição da sinistralidade rodoviária durante esta Páscoa.
Que estranho, não estava nada à espera...
(Ver post de 6 de Abril)

Páscoa: pormenores, pão e perfume


Da minha amiga Risoleta, palavras com sabor a laranja...

"Conto-vos como foi o milagre:

Sabem como são as cidades, sabem como é a cidade: fumo de escapes, gente a dormir na rua, autocarros atrasados e sem conforto, mau atendimento nos locais públicos, trânsito caótico, pessoas de olhar vago, longínquo, como autómatos de filme de ficção científica, dejectos de animais pelo chão, pedras soltas nas calçadas, carros nos passeios, bancos e caixas Multibanco e publicidade por todo o lado em vez de jardins ou outros espaços convivenciais, enfim, uma espécie de manicómio. Face a isto, não temos muitas alternativas. Ou morremos, ou adormecemos como os tais autómatos, ou optamos pela terceira "alTREnativa", e temos de nascer outra vez, pela terceira vez (a primeira foi quando nascemos, a segunda quando sobrevivemos, e agora... esta): há quem lhe chame ressuscitar, houve um que até experimentou há dois milhares de anos, ou que pelo menos tentou, dizem que resultou, mas ainda hoje não se sabe o que lhe aconteceu. Talvez o que importa seja essa memória vaga do mito, esse relato de um episódio da história, ou da mitologia da humanidade, essa crença, para alguns, de que um ser se soltou da prisão, essa esperança em forma de símbolo. Andamos por aí, na cidade, e às vezes, por esta época a que chamam Páscoa (mas que pode ocorrer em qualquer altura, em qualquer estação do ano, em qualquer momento do dia ou da noite, porque a Páscoa é como o Natal, quando a gente quiser) os olhos abrem-se vagamente para sombras, vemos nuvens, passamos pelo meio de vultos, uma força invisível impele-nos para um lugar ainda não conhecido da cidade, um lugar onde a beleza habita. Abrem-se-nos os olhos e não vemos o todo, passamos pelas montras cheias de ovos de chocolate embrulhados em pratas coloridas mas já não somos sensíveis à monotonia do comércio, apercebemo-nos de pequenos pormenores: um azulejo muito belo, uma varanda de ferro forjado num rendilhado interessante, uma brisa no cabelo, a cor do céu, as formas das nuvens, o tom mutante do rio, um perfume de pão, um cheiro a coentros, um perfume de flores… de laranjeira! Nós, que nos pensávamos a sonhar, abrimos então os olhos, quando nos apercebemos que estes odores são demasiado reais para serem de um sonho. Estamos… em Sapadores!, uma das zonas mais abandonadas e degradadas da cidade, mas de mil padarias (só pode ser!) desprende-se o perfume de pão cozido que nos conforta as memórias desde que aparecemos neste planeta, e do mercado recolhemos pelo nariz a agradável presença dos frutos, dos legumes e das ervas de cheiro; saindo do mercado e atravessando a rua, entra-nos pelas narinas o aroma quente, terapêutico e milagroso das laranjeiras ali mesmo do outro lado da estrada, ao pé do pavilhão gimnodesportivo.

E foi assim. Este ano já tive a minha Páscoa, tudo o que vier a mais é um bem acolhido suplemento, mas a minha história de ressurreição já ninguém me tira. Também querem? Apanhem o 35 ou o 26 e vêm até Sapadores. Depois de passarem pelas sombras (sim, sim, é um percurso iniciático), pelas nuvens e pelos vultos, a coisa acontece. O caminho da ressurreição não é linear. Mas depois, podem entrar em qualquer pastelaria e comprar um ovo de Páscoa ficando a comê-lo devagarinho à vista do rio, lá em baixo.

Partilho convosco a pose que uma das laranjeiras, que as inúmeras flores fizeram para mim. O perfume, só mesmo experimentá-lo… Tenham uma Feliz Páscoa em qualquer canto da cidade, do país, do planeta ou do vosso coração."
Risoleta

sexta-feira, abril 06, 2007

A velocidade e as estatísticas

Ontem fui visitar o Fluviário de Mora, pretexto para fazer 300 quilómetros em dia de grande circulação rodoviária. Mesmo evitando os principais itinerários, e saíndo de manhã para regressar ao fim do dia, fui confrontada com muito automóveis em circulação, desde o condutor em viagem para umas mini-férias, às centenas des camiões que circulam ao dia de semana pelas estradas nacionais, misturando-se com os utentes habituais de percursos diários.
Mandaria a prudência que, por isso, as cautelas fossem maiores, até porque muitos locais continuam pessimamente sinalizados, muitas estradas nacionais e secundárias estão numa lástima, faltando sinalização horizontal, vertical e indicação clara de bermas baixas em muitos locais.
Mas não. Continuamos a conduzir como se aquele fosse o último dia que tivessemos para o fazer. Eu vi, não me contaram, ultrapassagens no fio da navalha, automóveis e motorizadas a circularem, pelo menos, a 140 Km/h em estradas nacionais e, sobretudo, muitas pessoas a circularem com os carros extremamente carregados em velocidades manifestamente excessivas para os locais onde, no instante em que os vi, circulavam.
Confesso que tenho cada vez mais medo de circular nas nossas estradas e esse medo acentua-se em temporadas destas, porque sei como tudo pode mudar num simples segundo.
Podemos sempre pensar - nada poderia prever, mas isso é falso. Todos nós podemos prever a tragédia se pensarmos que ela não acontece só aos outros e que todos nós andamos nos limites.

Observo agora as primeiras informações da Brigada de Trânsito sobre a actividade operacional no primeiro dia desta Páscoa e não deixo de pensar, com algum cinismo, que é sempre o mesmo: nos primeiros dias da operação de reforço de fiscalização as informações apontam sempre para uma Páscoa ou um Natal pior do que no ano anterior. Depois, nos dias de regresso, tudo se transforma em calmaria e as estatísticas, como por milagre, acabam a revelar que, afinal, até nos estamos todos a portar melhor nas estradas, porque os resultados são mais positivos do que na Páscoa ou no Natal do ano anterior.

Por quanto tempo mais vamos continuar a aceitar que a sinsitralidade rodoviária seja apenas um conjunto de números? Porque motivo não revelam a PSP e a GNR os locais, os dias e as horas em que acontecem os acidentes com vítimas graves?
Só essa informação credibilizará a realidade portuguesa sobre a sinistralidade rodoviária, caso contrário andamos todos a assobiar para o lado a pensar que os acidentes são uma tragédia que só acontece aos outros.

quinta-feira, abril 05, 2007

Mais um aumento discreto da gasolina

A Galp, sempre atenta às deslocaçõe urbanas, resolveu aproveitar a quadra da Páscoa para proceder a um ligeiro aumento da gasolina. Coisa de somenos importância se pensarmos que a gasolina 95 da noite de quarta para a manhã de quinta feira passou de 1.298€ para 1.314€. Afinal o que são dois cêntimos, vá lá um cêntimo e meio por litro (porque fazem o arredondamento à milesima), para um consumidor? Quando muito equivale a mais 6 cêntimos por depósito e, se calhar, mais dois ou três euros no mês.
Mas o que aqui está em causa já é nem o facto de pagarmos a gasolina mais cara da Europa. Não é de hoje, é de sempre, com aumentos sucessivos nos últimos dois anos, sem que se perceba porque razão isso acontece, já que alguns surgem quando o barril do petróleo até está em queda.
O que aqui está em causa é mesmo a ganância: a oportunidade de aumentar a gasolina no dia em que se sabe que milhares de pessoas vão para a estrada em viagens rodoviárias.
Quantos litros irá a Galp vender durante estes quatro ou cinco dias? E quanto é que este ligeiro aumento de preço representa para a facturação da empresa do Dr. António Mexia, apenas nestes dias?
E já agora: o Governo não tem uma palavra a dizer sobre este pequeno aumento? Se calhar, uma vez que a Galp é uma empresa ainda maioritariamente pública talvez não fosse má ideia os portugueses ficaram a saber que justificação deu o Dr. Mexia ao dr. Teixeira dos Santos, ministro das Finanças.

Os preços de referência
Por deformação profissional fui á procura dos preços da Galp ao seu sítio da Internet (www.galp.pt) já que, como se sabe, estes servem de referência a todas as restantes marcas. E fiquei estarrecida quando percebi que, os ditos preços de referência, colocam a gasolina 95 mais cara em Aljustrel do que em Lisboa, por exemplo. Fica aqui a grelha da referência. E que ninguém se surpreenda se, na quarta ou quinta-feira da próxima semana, o preço volte para os mesmos 1.29€ a que pagámos durante todo o mês de Março.
Só por curiosidade também reparei que o preço de referência mais caro se aplica em áreas de serviço das auto-estradas onde, por estes dias, é suposto passarem mais pessoas: Maia (A3), Aljustrel (A2), Loulé (Via do Infante), Guarda (A25) e Modivas (A28)

1.314€
A.S. Águas Santas - Maia
A.S. Aljustrel - Aljustrel
A.S. Guarda - Arrifana
A.S. Loulé - Loulé
A.S. Vila do Conde - Modivas

1.311€
A.S. Alcochete - Alcochete
A.S. Freixo - Porto Circunvalação
A.S. Lumiar - Lisboa
A.S. Mem Martins - Lisboa


1.309€
A.S. Adelino A. da Costa - Cascais
A.S. Adémia - Coimbra
A.S. Belém - Lisboa
A.S. Bonfim - Setúbal ~
A.S. Ceide - Famalicão
A.S. Évora - Variante Zona Industrial
A.S. Guarda - Póvoa do Mileu
A.S. Leiria - Leira
A.S. Santarém - Santarém 
A.S. Tapada das Mercês - Sintra
A.S. Vila Franca de Xira

quarta-feira, abril 04, 2007

Esses socialistas que nos unem

A Venezuela vai acabar com o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) em 2009. Quem o anunciou foi o próprio ministro das Finanças que o considerou o imposto "mais regressivo" e injusto, porque penaliza mais as pessoas que menos tem, uma vez que todos pagam o mesmo sobre os produtos.
Recordando que a moda do IVA foi "plantada" pelos neoliberais, o ministro das Finanças do governo socialista e, dizem, populista de Hugo Chávez afirmou que a compensação das receitas do Estado será feita com os lucros obtidos com a subida do preço de petróleo no Mundo Ocidental e com um eficaz plano de recuperação de receitas do imposto sobre o rendimento.
A Venezuela, recorde-se, é o quinto maior produtor mundial de petróleo e, com a chegada de Chavez ao Poder, bateu o pé à influência americana e à dependência asfixiante do Fundo Monetário Internacional, que tornava refém um dos países com maiores recursos naturais do Mundo.
Nos últimos anos, a Venezuela já havia reduzido o IVA de 16% para 11% e, em 2008, é certo que o baixará para os 9%.
Por via das dúvidas, o ministro Rodrigo Cabezas foi lembrando que, com a redução e a extinção do imposto, o preço final que o consumidor paga terá, forçosamente, de baixar. "Não queremos que nos burlem, nem ao Estado, nem à cidadania", disse o estranho ministro latino-americano.

terça-feira, abril 03, 2007

Faltou um milagre em Chongqing


O que se passou em Chongqing, na China, fez-me lembrar "O milagre da Rua 8", um fabuloso filme de Spilberg do final da década de 80. O filme retratava a resistência de um casal idoso para manter a sua casa face à ameaça do carmatelo, que alguns chamam de progresso e desenvolvimento das cidades. Como a força das partes era claramente desigual, o casal de idosos recebeu preciosa ajuda extraterrestre, para manter a sua casa no meio dos arranha-céus que, em pouco tempo, desfiguraram o seu bairro de casinhas baixinhas. Veio do espaço, essa mão-de-obra preciosa que fez renascer a velha casinha.
Agora em Chongqing passou-se o mesmo e uma magnifica foto ilustrava bem o drama de um casal por manter os direitos sobre a sua propriedade. A luta de Wu Ping e Yang Wu, que se arrastava desde 2004, foi conhecida do Mundo quando se divulgou na Internet a situação insustentável em que a pressão imobiliária deixou a sua casa: toda a área em volta foi escavada, e a moradia ficou no topo de um talude, quase na vertical, de dez metros de altura.

Hoje ficamos a saber que, sem uma força extraterrestre capaz de fazer milagres, o casal aceitou sair dali, em troca de uma vivenda de igual valor, mas em outro ponto da cidade.

sexta-feira, março 30, 2007

Um dia de folga


Que ninguém se assuste, não voltei a perder horas a divagar atrás dos pássaros. Simplesmente precisava de experimentar a máquina nova. Estamos em testes.

A minha Lua e o meu Gaspar



Oito meses depois de a termos arrancado à morte, debaixo de uns tórridos 40º à sombra, a Lua é hoje uma cadela linda. No âmbito da guarda conjunta, a Lua veio passar o meu precioso dia de folga cá a casa. É assim quando amamos os bichos e as pessoas que aceitaram dar-lhe um lar. É a única que a correr consegue levar o meu Tejo ao tapete.
Enquanto o meu aristocrático Gaspar dorme despercebidamente no sofá, fazendo de conta que tem autorização para ali estar.

O meu Mundo mais próximo


Gosto de estar neste meu mundo. Uma visão de cidade, campo e rio. O meu mundo.

quinta-feira, março 29, 2007

Palavras que assustam

Gosto de escrever. A palavra escrita é mais ponderada e reflectida do que a palavra dita. E permanece, por muito que o tempo passe. Como a História e os acontecimentos. Nem todos perduram. No entanto a História constrói-se com os acontecimentos que realmente importam. É também uma boa terapia, naqueles momentos em que a lucidez nos tolhe a esperança, porque nos ajuda a refletir de forma objectiva e sistematizada, obrigando-nos a organizar um turbilhão de pensamentos que se atropelam e, tantas vezes, não nos deixam espaço para ver o caminho.
As palavras podem dar conforto, podem gerar insatisfação, mas transmitem sempre emoções. Só que às vezes sentimo-nos tão perdidos, com as nossas escolhas e tão presos às nossas ligações, que até as pelavras nos assustam.
Ontem, enquanto lia o "Predador", da Patricia Cornwell, uma frase saltou-me à vista: há pessoas que são mestres da arte da fuga, no que concerne ao escrutínio pessoal. É verdade e de certa forma tranquilizou-me essa constatação. Nada acontece por acaso, simplesmente nem sempre - diria quase nunca - conseguimos compreender em cima dos acontecimentos.

quarta-feira, março 28, 2007

O filho de Catarina

"Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer"
in José Afonso

José Adolfo do Carmo enche hoje a primeira página do 24 horas confessando o seu nojo pela "eleição" de Salazar como o melhor português de sempre. Não é indignação que lhe leio nos olhos é mesmo o nojo que resulta de uma dor muito profunda. 53 anos depois, José do Carmo é o bebé de nove meses que Catarina Eufénia carregava nos braços quando foi trespassada a tiro pelas balas assassinas de uma GNR sem alma.
José não conheceu a mãe. Conheceu-lhe a história, uma estória de voluntarismo, de juventude e de decisão que a fez aceitar representar os assalariados rurais de Baleizão. Aos 26 anos, quando se tem pela frente todos os sonhos do mundo e nas veias corre a vontade de mudar e dar passos em frente, Catarina deu o passo em frente reinvindicando o direito de trabalhar a terra. Tão simples, tão genuino, apenas isso.
Pagou com a vida. E hoje, 53 anos depois, desse tempo em que a fome varria com o Suão os hectares abandonados da margem esquerda do Guadiana, existe a memória do símbolo da resistência contra um regime opressivo, que negava o direito de viver a quem nada tinha. É essa memória que José do Carmo sente ultrajada e eu pressinto-lhe a vontade de vomitar.

domingo, março 25, 2007

Medíocres

Não há nada pior para a criatividade do que a presença de um medíocre a nosso lado. Bem sei que a inveja, como a dos caranguejos portugueses, também é lixada.
Mas esta espécie de caranguejos, que com o poder que julgam ter se sentem tentados a boicotar o trabalho dos outros, não se extingue, pelo contrário parece em franca reprodução. De tal ordem que, ameaçando as outras espécies, algum dia teremos mesmo de pensar numa maneira de exterminar a praga.
E depois admiram-se dos cabos Antunes deste mundo...

sábado, março 24, 2007

Don't let me down

O meu puto, finalmente, ultrapassou-me em altura. E de tal forma se tornaram indisfarçáveis os dois centímetros de diferença, que já não posso fazer de conta que não estou a ver bem. E como está feliz.
E vinhamos assim nessa felicidade cúmplice, a ouvir o apropriado don't let me down no carro, quando me atira "eu gosto dos Beatles".
Inchei. E lá lhe expliquei que mais do que para a música, os Beatles tinha sido muito importantes para a vida das pessoas, para a mudança de um mundo fechado para um mundo mais aberto, para uma relação mais liberta com os nossos corpos para uma maneira diferente, mais feliz e apaixonada, de olhar a vida.
Ficou a olhar para mim, quando lhe disse que foram jovens como ele que tinham dado o impulso decisivo para o sucesso da banda de Liverpool e que nós, os cotas de hoje, muito agradecemos a essa geração de coragem dos nossos pais.
O meu puto, que para grande orgulho meu, gosta de História e de estórias, ficou espantado quando lhe disse que, nesse tempo, há 40 anos, embora não devessem mostrar as pernas, as mulheres não usavam calças e viviam para casar e ter filhos, porque isso de trabalhar - com tudo o que isso significa - era coisa de homens.
Que turbilhão de perguntas arranjei eu na cabeça do meu puto. É que deve ser muito difícil imaginar uma sociedade assim e, principalmente, perceber que isto só aconteceu há 40 anos...

sexta-feira, março 23, 2007

Mohamed Yunus

Já aqui escrevi sobre Muhammad Yunus, o Prémio Nobel da Paz. E volto hoje a fazê-lo recomendando a leitura da entrevista que deu à minha camarada Carla Aguiar e publicada no DN de hoje.
O mundo é um lugar mais próspero com pessoas com Yunus. E a sua maneira de ser é fonte de inspiração para todos os que sonham mudar as coisas. Pois, como ele diz, primeiro é preciso acreditar, sem hesitações, simplesmente acreditar, para depois ter coragem de avançar.

E eu recordo-me de Martin Luther King que também teve um sonho de uma sociedade mais justa. E apesar de tudo, o Mundo está melhor do que no seu tempo.
Mas alguém teve de sonhar...

Gosto da serenidade, da tolerância e da capacidade de fazer de Yunus e sei que, mesmo em caminhos longos, saberemos construir o seu sonho. Afinal, somos tantos a sonhá-los.

quinta-feira, março 22, 2007

Grandes mestres

Um professor amigo telefonou-me ontem dizendo-me que se ia afastar do ensino, amargurado com o que se passava na Independente. Doia-lhe a alma por deixar os alunos, mas não tinha alternativa. Disse-me, e foi bom recordá-lo, que o verdadeiro prazer de um professor é ver os alunos entraram sem nada e sairem com um bocadinho de saber. Um bocadinho que um professor sabe ter ajudado a construir.
Como é bom saber que ainda há mestres assim.

O diabo anda à solta...

Com a devida vénia e respeitosos cumprimentos à Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, aqui se deixa um oportuno comunicado acabadinho de divulgar...

(...) O DIABO DA VELOCIDADE

Face às notícias surgidas na imprensa de ontem sobre o comportamento rodoviário anti-social de um pároco de Santa Comba Dão, a direcção da ACA-M decidiu dirigir-se ao Papa Bento XVI, à Conferencia Episcopal portuguesa e ao Arcebispo de Viseu, pedindo à hierarquia eclesiástica que ajude aquele sacerdote a exorcizar o seu desmedido prazer pela velocidade que a potência do seu Ford Fiesta 200 ST lhe permite atingir.

Haja alguém com coragem para exorcizar o demónio. Será do local?

Em stand by

Ando cá com uma falta de inspiração para escrever e como preciso de o fazer sinto como estou a começar a ficar irascível. Deve ter sido por ter dormido com os pés de fora.

quarta-feira, março 21, 2007

O melhor português

Tenho andado a ponderar qual seria o melhor português de sempre se, porventura, alinhasse com estes critérios redutores da inteligência, com a classificação de pessoas em melhores e piores, se considerasse que as pessoas, as suas estórias e as suas vidas, pudessem ser classificadas por critérios competitivos ou de valores. Aqueles que são os meus, não tem de ser somados aos de outros que pensam como eu. Ou não.
Quando observo a lista dos dez eleitos, de 11 séculos de história da Nação, apetece-me comentar ao contrário. Justificar porque não voto neles.

Afonso Henriques
Tenho cada vez mais dúvidas históricas sobre os fundamentos que deram origem à rixa entre um filho e uma mãe. Que valores se quiseram proteger ao sacudir a dependência de Castela? Dar melhores condições ao povo? Olhando para trás para a História, tenho grandes dúvidas.

Alvaro Cunhal
Foi um grande português. Exemplo de humildade, coragem e determinação com papel relevante na História portuguesa dos últimos 50 anos. Foi também um mártir e um incansável lutador pelos seus ideais, mas deixou de ver o curso da História, a evolução do seu tempo. Parou e perdeu-se nas suas convicções sem ouvir que o mundo pulava e avançava, lá fora. Perdeu uma oportunidade histórica de, em democracia, construir a resistência daqueles que não se queriam acomodar. E desiludiu por isso.

Aristides de Sousa Mendes
Salvou pessoas. Uma, duas, mil, 30 mil. Não importa. Abriu esperança a quem via no horizonte uma morte precoce e anunciada. Deu-lhes passaporte para a vida, abrindo-lhes um local para viver e pagou por isso. Pagou uma factura muito elevada, recompensada para a eternidade por pessoas anónimas, como eu, que se honram de partilhar a mesma nacionalidade do diplomata em Bordéus. Não há um mas, em Aristides.

Fernando Pessoa
O génio do meu poeta preferido, múltiplo de personalidades fascinantes e contraditórias. "Um fingidor" e um sofredor permanente que lhe aguça o génio criativo. Prosa e poesia que mexem com o mais intímo de nós. Ficou demasiado preso à escrita e precisava de mais tempo de vida para ser o maior português de sempre

Infante D. Henrique
O cardel foi um visionário. Coisa que falta a muitos governantes actuais. Percebeu que a nossa vida como Nação teria de passar pelo Oceano. E passou. Mas o resultado ainda hoje me envergonha, quando penso nas atrocidades que se cometeram. Mesmo observadas aos valores da época.

D. João II
A mesma visão do Cardeal, com maior responsabilidade. Foi, de facto, um grande soberano da História de Portugal. Soube governar, gerir sensibilidades e amealhar riqueza. Mas é esta riqueza que ainda hoje me cala a alma lusitana, porque foi construída à custa da exploração do homem pelo homem, dos saques e da delapidação de territórios. E nada na História nos garante que já conhecia o Novo Mundo quando negociou o Tratado de Tordesilhas. É uma coincidência? Pois é, mas por isso mesmo não tem valor histórico.

Luis de Camões
Confesso não ser particular adepta, mas reconheço que é por Camões que o português é a sexta língua mais falada no Mundo. Ainda. Sinto que "A minha pátria é a minha língua", mas não o suficiente para fazer d'Os Lusíadas o trampolim decisivo para a escolha

Marques de Pombal A sua acção "iluminada" foi importante para fazer frente à desgraça do Terramoto. Foi de grande estadista a sua visão para agir, mandando construindo grandes obras públicas de vital importância para o País. As cidades desenhadas a régua e esquadro, com zonas de lazer e praças, ainda hoje perduram como um exemplo de harmonia arquitéctonica do espaço colectivo. A tentação absolutista em que viveu como Rei fez do Primeiro Ministro de D. José um tirano, do qual o processo dos Távoras é o testemunho mais conhecido. Apenas o mais conhecido. É o fiel retrato do ditado popular Se queres ver o vilão, coloca-lhe o pau na mão.

Salazar
Meio século de atraso no desenvolvimento do País. Uma política de atraso cultural e de intolerância da qual ainda hoje pagamos pesada factura. Foi responsável pela opção de políticas bélicas quando no mundo já sopravam ventos de mudança. Foi o mentor e principal impulsionador de uma alma colectiva amordaçada. Não há perdão na História para o fascimo e tudo o que ele representa.

Vasco da Gama
Nem merece estar na lista. Que fez Vasco da Gama? Chegou à India por mar. Mas quem desbravou o mar, quem enfrentou "O mostrengo que a minha alma teme" foram os marinheiros de Bartolomeu Dias. O grande obreiro da travessia do Cabo Bojador. Ele sim, devia estar na lista em vez de Vasco da Gama.

terça-feira, março 20, 2007

Chegou a Primavera

A Primavera chegou hoje. Dizem as fontes oficiais que este ano é no dia 20 de Março às 12h33. Portanto, já estamos na Primavera. É tempo de celebrar o Equinócio, fenómeno que acontece apenas duas vezes por ano, quando o dia e a noite tem exactamente a mesma duração, porque o Sol nasce exactamente em cima do Oriente e põe-se exactamente a Ocidente. Aequus de igual e nox de noite.
Como o Win e o Yang, o Sol e a Lua.

Casamentos e Baptizados nas escolas

O DN de hoje revela que, de acordo com uma proposta do governo, as escolas poderão vir a ceder o seu espaço para a organização de casamentos e baptizados e ganhar maior autonomia financeira com o encaixe financeiro resultante desse negócio.
Acho bem.
Sempre defendi o aprofundamento da ligação das escolas, de qualquer grau de ensino, à comunidade onde se insere. Embora não seja esse o tópico de discussão, esse é para mim o valor principal a promover. Mas também não descuro as possibilidades financeiras que o negócio potencia, aumentando a capacidade das escolas em gerar receitas próprias. E penso, como para as autarquias, que cada euro gasto por uma escola tem sempre muito mais valor do que cem euros gastos pelo Ministério da Educação.
Ao ler a notícia, porém, percebo que afinal o Governo abre essa possibilidade, mas centraliza o negócio nas mãos de uma empresa pública que assegurará a gestão comercial desses espaços.
Portanto, lá se vai a ligação da escola à comunidade e a capacidade das escolas em gerar receitas próprias...

quinta-feira, março 15, 2007

Comunista zen

Aqui há uns tempos, o Carlos Vaz Marques entrevistou um conhecido argumentista de cinema, Tonino Guerra, que se auto definia como um comunista zen. Mesmo sem saber bem o que isso é, sinto-me assim.

quarta-feira, março 14, 2007

Conversa de émeis

A D. Natalina tem um café. É uma longa história que fica para outra altura. O importante agora é que ela tem um café, um café de bairro, aqui para os lados de Sete Rios, próximo do Terminal de Camionagem, do Comboios, do Metro, dos Autocarros e do Instituto Português de Oncologia. Como se pode verificar, a D. Natalina tem um café numa zona de muito movimento e onde as pessoas chegam e partem, fazem visitas e ARRUMAM OS CARROS.
Sendo, como está visto, uma zona de muito movimento e de estacionamento (pago, claro!), há também muitos «rapazes» da Emel a vistoriarem se todos cumprem a Lei e a bloquearem os carros quando se verifica a mínima infracção. E fala-se de mínima infracção porquê?
Atente-se a esta conversa de café:
1º Emel: … Aqui, nós bloqueamos logo! Não deixamos aviso nenhum, nem há papéis para ninguém!
2º Emel: E não temos culpa se há outras zonas da cidade em que deixam avisos. Temos novas competências e bloqueamos e já está!
3º Emel: Se as pessoas têm mais sorte numas zonas, podem ter mais azar noutras. Na nossa, têm sempre azar! E é pagar logo para desbloquear!

Uma senhora, que igualmente tinha estado a tomar café, sugeriu, discretamente, se «isso não favorece a corrupção?! Sempre é mais barato dar qualquer coisa do que pagar o desbloqueamento!»

Mas, à sugestão, os émeis foram completamente surdos. Como são cegos a quem demorou mais cinco minutos, ou foi ver um doente, ou sofreu um atraso no transporte público…

Fica, assim, clara a formação (profissional?) dos émeis da nossa Lisboa que, com novos poderes, cada vez se sentem mais acima da Lei.

Fio da Navalha

Voltaram os livros da Patricia Cornwell, da colecção Fio da Navalha, da Presença. Já tinha saudades da escrita minuciosa e inteligente, com personagens que crescem e envelhecem connosco. Estou a ler "Sem causa aparente" e a resisitir a ler tudo numa noite, para estender o prazer por vários dias.

domingo, março 11, 2007

E eu, afinal, o que queria era conversa

Este tempo primaveril é notícia. E uma boa notícia. Por isso, aqui no DN ligámos para o Instituto de Meteorologia querendo saber mais sobre o estado do tempo e pedindo para falar com o meteorologista de serviço. Para conversarmos um bocadinho sobre o tempo e afins. Essas coisas de que se fazem os jornais e se chamam notícias. Pois bem, o zeloso funcionário lá nos recomendou que mandássemos um email com as perguntas. E de nada valeu argumentar que a conversa era mais rica e nos permitia um entendimento melhor.
Mesmo sobre o estado do tempo a solução era mesmo o email.
Complicamos tanto coisas tão simples que, qualquer dia, pelo andar desta carruagem ou deixa de haver notícias ou não tarda nada estamos a mandar emails directamente ao S. Pedro. Afinal, a fonte fidedigna.

Mais bombeiros

Afinal o propósito da denúncias dos bombeiros de Vouzela consiste em sensibilizar o governo para a necessidade de criar uma lei específica para evitar condenações ao pagamento de elevadas indemnizações por trabalho suplementar.
Muito bem, quando a lei não corresponde aos nossos interesses, mudemos a lei.
E ainda há quem pense que vive numa Estado regido pelo Direito.
Tenham paciência - e já que a ninguém acorreu a possibilidade de a funcionária despedida pedir uma indemnização - agora paguem.

Bombeiros de Vouzela

Confrontados com uma decisão judicial que lhes é desfavorável, os bombeiros de Vouzela vieram para a comunicação social alertar para a possibilidade de fecharem as portas se tiverem de cumprir a sentença proferida pelo Tribunal.
É estranho.
O caso, do que percebi, é fácil de contar: uma funcionária despedida, recorreu para tribunal e o tribunal deu-lhe razão, obrigando a corporação de bombeiros a proceder a uma indemnização compensatória.
Os bombeiros alegam agora que não têm dinheiro para o fazer e, com cumplicidade, vejo o presidente da câmara solidário com a corporação.
Sobressalta-me, contudo, uma questão: é certo que as instituições são sempre responsáveis pelas decisões dos seus gestores. Boas e más. Mas terá de ser assim? Se fosse mais frequente a aplicação de medidas de responsabilidade civil aos gestores das instituições, talvez estes pensassem melhor sempre que, pelos motivos mais diversos, resolvessem afastar pessoas.
É que as más decisões dos gestores, às vezes tomadas sem a mínima fundamentação ou competência técnica, podem, de facto, comprometer o futuro das instituições. E em última análise todos perdemos com isso.

No caso de Vouzela, nem conheço os pormenores do processo, mas confesso que sou pouco sensível às lágrimas de crocodilo que tem sido derramadas pela instituição que despediu uma funcionária, sem avaliar o alcance que essa medida poderia vir a ter no futuro.

sexta-feira, março 09, 2007

Ser sénior aos 40 anos

Vi no outro dia, num jornal qualquer, que o governo australiano lançou uma forte campanha de publicidade visando cativar a população sénior - que entretento abandonou a vida activa e se reformou - a voltar às empresas. É verdade que são motivos económicos a pesar na implementação de novas políticas públicas. A falência do Estado keynesiano da solidariedade social é uma evidência e os sistemas de segurança social, criados para fazer face a uma esperança média de vida de 60/70 anos, não conseguem suportar esperanças de vida de 80 ou mais anos.
Mas este é tambem um novo paradigma social que se começa a impor e que combate a injustiça de atirar pessoas ainda activas e com muito para dar à sociedade para as margens dos dispensáveis.
Vivemos uma sociedade onde se é workaholic aos 30 anos, sénior aos 40 e dispensável aos 50. Que ganham com isto as organizações e quanto perdem? Já se contabilizaram as razões e as mais valias?
Será que um pedreiro aos 40 anos não dará um óptimo segurança aos 50? Ou um jornalista não dará um excelente professor?
É importante ter em conta que, a meio da vida activa, e por força do tal esgotamento dos wokaholic's, uma pessoa pode estar cansada do exercício de uma determinada profissão, mas ainda se sentir com força e dinâmica para encetar outros desafios.

São razões económicas que promovem as transformações sociais. Pois são, mas não será assim em nossas casas também? Em tempo de vacas gordas alguém perde tempo a olhar para a factura da água ou da luz ou para a hipoteca da casa? Isto já para não falar que a própria escravatura terminou apenas porque o senhor percebeu que lhe ficava mais barato pagar um salário miserável do que alimentar o escravo.

Saudades

Deve ser mesmo da nostalgia dos tempos que correm. Percebi como tenho saudades de Braga e do Nuno e olhando para baixo para o post das distâncias penso que é mesmo assim. Não é de facto a distância que afasta as pessoas. Afastamo-nos por tantos motivos: por desconfiança nos outros, por medo de nos revelarmos e ficarmos desguarnecidos, por insegurança face ao desconhecido mas, sobretudo, porque nos tornamos reféns do dia-a-dia e dos preconceitos que construímos e alimentamos carinhosamente.
São essas as nossas opções e, se calhar, não há como ser diferente. Agora ao falar como Nuno apertou-se o peito por estarmos tanto tempo sem nos falarmos. Mesmo que essa também tenha sido a minha gestão do tempo, permitindo que o meu puto, entretanto transformado em homem, também gerisse o seu tempo e as suas paixões. Tanta coisa mudou e, contudo, sabemos que estamos cá. Mesmo à distância de Lisboa e Braga, mas sempre lado a lado.
A propósito, também tenho tantas saudades de Braga porque, parafraseando o Malato "já fui tão feliz em Braga" em circunstâncias tão diferentes, mas apesar de tudo sempre feliz. Braga é um cidade onde não me importaria de viver. De todo.

Experiências

Isto é só uma experiência e dá para ver que funciona.

quarta-feira, março 07, 2007

Fragmentos

Não é a distância que nos separa das pessoas. Mesmo à distância chegam-nos fragmentos que nos permitem ir construindo imagens, como mapas. São pequenas peças de cumplicidades, de sorrisos, de partilha e isso quebra o espaço e aquece-nos o coração. Sobretudo em alturas mais depressivas, como esta, em que temos tendência para olhar para o raio do copo meio vazio. É dessas teias que emergem pequenos pedaços, com os quais nos vamos identificando e estabelecendo proximidades. E encurtando distâncias.
Mas acima de tudo o que conta é a renovação, a descoberta de que, afinal, quando já pensávamos não sermos capazes fazer novas amizades, nos redescobrimos a acreditar, de novo, nas pessoas. Quando encolhemos os ombros num desesperado "não querer saber", percebemos que, afinal, ainda há quem queira saber.
E esses momentos de cumplicidade e de partilha são únicos. Mesmo que fiquem a pairar muitas coisas por dizer, porque confiamos que as podemos partilhar. É essa confiança que nos faz renascer a crença em tudo e que nos dá a certeza que teremos sempre uma conversa em stand by. Como todos os amigos devem ter.

Cidades

Hoje fui assistir a conferência do Arquitecto Manuel Salgado, à margem da Exposição Viver as Cidades dos Programa Pólis. E fiquei espantada com a quantidade de pessoas que, às seis da tarde, enchia o auditório do Pavilhão de Portugal, interessadas nestes assuntos da revitalização, reabilitação e requalificação das cidades. E dou por mim felizmente espantada. É um bom sinal este.
Da notícia, obviamente, escrevê-la-ei no Diário de Notícias, na sexta-feira.

terça-feira, março 06, 2007

Aprender sempre e estar sempre disponível para ver

Deve ser por alguma melancolia mas hoje fui aos arquivos à procura deste texto. De vez em quando é importante lembrar, para nunca esquecer.

«Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
Aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

Começas a aprender que beijos não são contratos e presentes, não são promessas.

Começas a aceitar as tuas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

Aprendes a construir todas as tuas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão.
Depois de um tempo aprendes que o sol queima se ficares exposto por muito tempo, e aprendes que não importa o quanto te importes, algumas pessoas simplesmente não se importam...

E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai ferir-te e de vez em quando tu precisas de perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobres que se levam anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que tu podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás pelo resto da vida

Aprendes que as verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. O que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida.
E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas com quem mais te importas na vida são levadas para longe de ti muito depressa - por isso, devemos sempre deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pois pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas que nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começas a aprender que não nos devemos comparar com os outros, mas com o melhor que podemos ser.
Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.
Aprendes que não importa onde já chegaste, mas para onde vais,

mas se não sabes para onde vais, qualquer lugar serve.
Aprendes que, ou tu controlas os teus actos ou eles te controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre dois lados.

Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências.

Aprendes que paciência requer muita prática.Descobres que algumas vezes, a pessoa que esperas que te chute, é uma das poucas que te ajudam a levantar.

Aprendes que a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que tu aprendeste com elas.

Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que tu supunhas.

Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são parvoíces, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas que isso não te dá o direito de ser cruel.

Descobres que só porque alguém não te ama da forma que tu queres que ame, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.

Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, tu serás em algum momento condenado.

Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes.

Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperar que alguém te traga
flores.
E aprendes que realmente podes suportar... que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensares que não podes mais.
E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!»

William Shakespeare

sábado, março 03, 2007

Ainda os bancos...descubra as diferenças

Com a devida vénia ao blog "para lá de bagade"
Os Bancos cá e lá
Veja-se no Sunday Times desta semana, ou aqui como, por um lado, a arrogância dos Bancos não conhece fronteiras e, por outro, como é diferente a reacção dos consumidores em diferentes países. Enquanto por cá foi necessária uma intervenção do Governo para que se conseguisse impor uma maior razoabiliade na fórmula de cálculo dos arredondamentos das taxas de juro cobradas nos empréstimos para compra de casa, no Reino Unido, bastou que um cliente (por sinal um estudante de Direito) não aceitasse as penalizações exorbitantes que o seu banco lhe cobrava (2x52 Libras por um saldo negativo de 50 pences). Lá bastou uma rápida intervenção judicial, um acordo extra-judicial e milhões de consumidores a reclamarem o seu dinheiro de volta para que os Bancos reconhecessem que teriam de devolver os fundos indevidamente cobrados. Lá nenhum Banco se atreveu a alegar em sua defesa que os consumidores estavam a fragilizar a economia nacional. Lá bastou uma alegação de proporcionalidade para que todos percebessem o que estava em cima da mesa e nenhum representante do sector se comportou de forma "Peronista"...
De Bag