Palavra de honra que me tenho andado a morder para não botar faladura sobre o "caso Maddie". Em 20 anos de profissão já li sobre desaparecidos quilómetros de prosa que bastem para perceber que 90% do que se diz não passa de mera especulação. Os factos e as teorias misturados, impossíveis de distinguir e confirmar, por mais espantosos que sejam, encaixam-se - nem que seja à martelada - nas páginas dos jornais.
Não se pense que faço aqui uma subtil crítica aos jornalistas. Teremos certamente as nossas culpas, mas isso daria um outro apontamento. Há um romantismo descabido à volta da profissão. Os jornalistas não inventam notícias, no sentido do acontecimento: Alguém lhes dá as pistas para que façam essa coisa, que ganhou estatuto politicamente correcto, chamada investigação jornalística. Em outros casos, fontes aparentemente credíveis, como as policiais, ou por ânsia de ficaram bem na fotografia colectiva ou por já não conseguirem resistir à pressão mediática, acabam por deixar cair opiniões, que os jornalistas usam como factos processuais.
Em ambos casos, a opinião pública é bombardeada com um tal caudal de informação em que, ao mesmo tempo, tudo e nada fazem sentido.
Informação e opinião misturam-se despudoradamente contribuindo para intoxicar a opinião pública, em vez de a esclarecer. E ao mesmo tempo, surgem no enredo novos personagens embuídas de espírito credível.
Serve esta introdução para confessar o meu espanto com um destes personagens, que passou a ter direito a figurar no topo das páginas impares dos jornais e a entrar-nos pela casa, via televisão, dando explicações triviais sobre o desaparecimento (ou homicídio???) da Maddie.
Ex-inspector da Polícia Judiciária, Paulo Pereira Cristovão, foi um dos responsáveis pela investigação do desaparecimento de outra menina (Joana), de oito anos, também no Algarve, em 2004.
Pereira Cristovão surge assim como o mais recente perito policial, que nos ajuda a compreender o que policia ainda não conseguiu: já deixou de ser importante saber o que aconteceu à garota - o que importa mesmo é compreender os padrões psicológicos dos envolvidos.
Aos 38 anos, o ex-inspector deu um pontapé à sua vidinha chata de polícia. Saíu da PJ, alegadamente (segundo li) para abrir uma empresa de investigação e consultadoria, escreveu um livro sobre um dos mais recentes fracassos de investigação da Polícia Judiciária - o caso Joana - e é-nos apresentado como referência máxima de sucesso e credibilidade para nos ajudar a explicar um caso de desaparecimento idêntico.
Bem sei que o sr. inspector acredita que a menina Joana foi cortada aos bocadinhos, colocada num carro e enviada para Espanha. Mas também sei que em tribunal - onde se faz a prova dos factos e não das convicções - nunca se provou onde foi depositado o corpo da menina (se é que houve homicídio).
Talvez precisemos de casos como este para nos irmos entretendo, de preferência no Verão.
Não faço a menor ideia do que sucedeu à Joana ou à Maddie, mas o que tenho lido é suficientemente rebuscado para só desejar que as convicções da Policia Judiciária estejam certas. É que se no caso Joana, a vergonha dos maus resultados policiais, ficou entre portas - e alguém exigiu responsabilidades? - em relação à Maddie todo o Planeta sabe que a polícia portuguesa está convictamente convencida que os pais McCann cortaram a filha aos pedacinhos.
Isto não é bom, se for verdade.
Mas se for mentira, não sei como iremos explicar que a PJ é "uma ds melhores policias de investigação do mundo", como há tantos anos nos querem fazer crer.